às vezes...
Às vezes quero mesmo por os pés assentes na terra, e por momentos deixar de divagar, deixar viver naquele mundo de fantasminhas cor-de-rosa, com a mania que me assustam… Sento-me calada e sei devo dizer alguma coisa. Mas alguma vez sentiram aquele nó na garganta que vos impede de dizer seja o que for? Acontece-me constantemente… Parte da minha consciência, o lado bonzinho, com asas e vestidinho branco, de ar angelical diz-me baixinho ao ouvido para ser simpática, para dizer algo, mas o lado mau, de vermelho vivo e ar matreiro diz-me sorrateiramente que devo pura e simplesmente fazer o que me der na cabeça… E lá cedo eu às ordens endiabradas que me propõem ao ouvido… é quase inevitável, acreditem em mim. E depois implico com tudo e com todos. Não porque quero, mas porque simplesmente o faço de um modo imediato, espontâneo, sem pensar. Tudo o que digam ou façam parece-me estúpido, despropositado, e acima de tudo irritante. Paciência é o que me falta, sem dúvida alguma. Ouço comentários à minha volta, do estilo: “é da idade” ou “já se sabe, está naquela fase difícil”… Qual idade, qual fase difícil!! Todos estão errados e eu sou a única que contém a derradeira fonte de verdade. E sinto mesmo que tenho razão, que estou no centro do mundo, não porque me quero mostrar maior, superior, mas porque tenho mesmo essa certeza estúpida engavetada na minha cabeça.
E já nada me pára e de nada tenho medo. E mesmo aquele filme de terror que sempre me assustou desde pequenina, agora faz-me soltar gargalhadas fortes. Irónico, não? Critico com fortes argumentos (não no próprio sentido da palavra, ou seja argumentos bons, mas argumentos manipulados fortemente, ditos de um modo que dá a volta…) tudo o que acho que está errado em meu redor. E nada nem ninguém escapa à minha crítica. Afinal se não tenho medo da reacção dos outros, posso contestar toda e qualquer coisa, posso falar daqueles tabus que antes deixavam corar.
Sou forte, muito forte. Ou pelo menos é o que penso, convictamente. E é isso que importa, não é? Ter atitude! Mas, às vezes, caio e o meu mundo cai comigo. Deixo de ser aquele gigante Adamastor, enorme, forte, invencível e sinto-me pequena, frágil… A atitude vai-se esvaindo e a resposta na ponta da língua também. Chegam as dúvidas e indecisões. Passo a ver o mundo real, duro tal como é. Olho para mim com outros olhos… não sou tão frágil, assim… Volta a força e convicção.
O meu mundo é como plasticina, pode-se moldar. Tanto pode ser pequeno e frágil, como médio e real ou grande e inabalável. Ás vezes pode ruir, mas volta-se a reabilitar… às vezes acontece assim… mas só às vezes…

1 Comments:
"A juventude é uma idade horrível que apreciamos apenas no momento em que sentimos saudade dela."
A. Amurri
Ou, como diria Rimbaud "Ninguém é sério aos 17 anos"
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