céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

quinta-feira, maio 19, 2005

Por segundos, respiro. Sei que já foste embora, fechaste a porta com força atrás de ti. Finalmente posso largar aquelas lágrimas gordas que ansiaram rolar pela minha face há momentos. Soluço bem alto e sinto que o coração não vai aguentar muito mais tempo, dentro de mim. Relembro mais uma vez, as palavras que proferiste, palavras que nunca pensei ouvir de ti… Olho para a porta ansiosamente. Parece estúpido, mas rezo para que voltes e me peças perdão de joelhos… sabes, quero que tudo fique bem, novamente… No entanto sei que não virás. Tenho a certeza que agora estás a andar em frente decidido e a pensar coisas horríveis sobre mim… É normal, eu também pensaria.
E começo a pensar porque me deixaste. Sabes o quanto sofro quando estou longe de ti… Se calhar nem isso te importa porque, muito provavelmente, já não sentes nada por mim… mas não eras tu quem dizia que não se esquece uma pessoa de um dia para o outro? Devia ser assim, de facto… Começo a escrever. Afinal é a minha única saída quando os sentimentos insistem em rebentar dentro de mim, de tanta intensidade. “Romacezecos foleiros… histórias lamechas típicas…” era o que tu comentavas em tom de brincadeira quando lias atento os meus escritos. Eu ria-me e entrava na brincadeira, mas agora, pensando melhor, acho que ficava um pouco triste, por mesmo que a brincar mandasses aqueles comentários. Parei de escrever. Fiquei quase que inibida com este pensamento. Olhei para varanda. Estava um dia bonito, lá fora. Havia algumas nuvenzinhas a pairar no ar, e flutuava uma brisa suave e relaxante… Caminhei para lá. E não sei porquê, sem razão alguma, subi para o parapeito e olhei para baixo. Tinha medo, pavor de alturas e agora estava ali, calma e serena a olhar para chão do 8º andar. Fechei os olhos e deixei-me levar. Acordei num sobressalto. Toquei na cara e nas pernas para ter a certeza que estava tudo no sítio. Tinha sido um sonho, melhor, um pesadelo! Tocaram à porta. Corri para lá apressada. Eras tu. Deixei a porta entreaberta, virei-te costas e sentei-me no sofá. Aproximaste-te devagar e sentaste-te perto de mim. Liguei a televisão de imediato Não queria falar contigo. “Não vais dizer nada, é?”- disseste tu amargamente. Não proferi palavra. E começa a discussão, mais uma vez. Eu falo, tu ripostas, eu levanto a voz, tu gritas. Quero chorar com todas as minhas forças, mas não o farei. Estás a olhar para mim neste preciso momento mas eu olho em frente, assim com indiferença (o orgulho é mais forte que eu…). Levantas-te repentinamente e sais em silêncio (um silêncio que me apavora…). Por segundos, respiro. Sei que já foste embora, fechaste a porta com força atrás de ti. Finalmente posso largar aquelas lágrimas gordas que ansiaram rolar pela minha face há momentos. Soluço bem alto e sinto que o coração não vai aguentar muito mais tempo, dentro de mim… Nunca desejaram não ter aquela sensação de dejá vu…?

1 Comments:

At 11:07 AM, Anonymous Anônimo said...

O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

in Livro do Desassossego, Bernardo Soares

 

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