céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

segunda-feira, março 14, 2005

Fazes-me voar?

Olho para ti
Mais uma vez, o rosto escondido
Mais uma vez, uma lágrima que chora
Sozinha na escuridão
Mais uma vez, a bruma que nos separa
Mais uma vez, a alma vazia,
oca, pedindo por ajuda em vão
Mais uma vez eu
Ajoelhada a teus pés
Jurando não te amar, nunca mais
Mais uma vez, uma mão estendida
Implorando pela a ajuda
Que nunca virá
Mais uma vez eu aqui…
A sorrir…
A olhar para ti...
A olhar a lua que me vigia atenta
De lá de cima,
As estrelas cintilantes
beijam-me o rosto pálido
E eu digo baixinho, rouca,
De entre feridas que nunca hão-de sarar
De entre soluços de mágoa, que insistem em não cessar,
Arranja as minhas asas…
Fazes-me voar?

1 Comments:

At 7:41 AM, Anonymous Anônimo said...

Andrey Tarkovsky em Paris

Perdeste. Não sabes o quê.
E procuras.

Algo de impreciso, uma nuvem
ao entardecer, imagem
capaz de restituir a luz que vai declinando
na casa, no corpo, no rosto,
até nada mais restar do que
um lugar vazio,
a memória.

Perdeste. Há quanto tempo
não sabes.
Algo que sempre te acompanhou,
e não é sombra,
pois carece de contornos.
Algo que te foi destinado: mensagem,
quando estavas fora de casa;
olhar, ao qual distraído não respondeste;
pergunta, feita por essas mãos
junto às tuas, fechadas.

Algo para o qual nunca tiveste nome
e tempo dentro de ti:
passagem de um livro que ainda não leste,
pormenor de uma pintura a descobrir;
trecho de música por escutar,
fala de um filme que não viste?

Não adianta tentares adivinhar.
O que perdeste não foi um modo de compreensão
do mundo, o seu peso e leveza
da retina à película.
Se calhar, essa perda aconteceu na época
em que finalmente alcançavas
aquilo a que os estóicos chamavam serenidade?
O método de pelos restantes dias
esperar o inferno da doença,
sem que o receio da morte
transforme a arte num poço.

Aquilo que perdeste,
perdeste-o acaso para que um outro o alcançasse,
neste momento?


Jorge Gomes Miranda, in O Caçador de Tempestades

 

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