Naqueles dias frios, mesmo de cortar a respiração, deito-me consolada de barriga pra cima, mesmo perto do calorzinho da lareira. Olho para o tecto e penso mais e mais. Fico assim, neste devaneio inigualável por horas... Até que fecho os olhos e começo a passear por sonhos jamais esquecidos. Consigo ouvir a chuva lá fora, porém não estou aqui... Dou o meu último, longo suspiro e parto para bem longe. Agora sou algo maior. Consegui o que queria, finalmente. Aquela força enterrada já há muito, voltou para mim e sinto-me segura como nunca. Sei quem sou e por isso sorrio e orgulho-me. Consegui arranjar a força necessária para me encontrar, para me levantar e enfrentar tudo e todos. Abro os olhos. Voltei. O meu coração bate forte e sei que algo mudou. Já não quero sentir o conforto daquele calorzinho que me abraça, me envolve e me pede para eu ficar. Recuso-o. Sinto outro calor dentro de mim, algo verdadeiro. Abro a porta e respiro o ar gelado- aqui vou eu!- Já nada me impede.

1 Comments:
Recado
ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Al Berto, Horto de Incêndio
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