Rascunhos de uma vida normal
Aqui estou eu sentada na areia molhada, bem perto do mar como quase todos os fins de tarde. Faça chuva ou faça sol, pra cá venho eu olhar para o horizonte, ao som da música que faço, ao som das tremidas letras que invento e componho ao longo de todo o dia.
Não me consigo concentrar numa coisa só. Quando estou a estudar, ou a ver televisão, qualquer coisa, estou sempre a pensar nalguma estupidez ou insignificância ou mesmo em questões existenciais como “porque estamos aqui” ou “quem somos nós”. O meu pai costuma usar termos como “aluada”ou “sonhadora” para me definir, tudo isto porque tenho sonhos e ambições e tenciono marcar a diferença neste mundo. Ou seja, ele critica-me, porque sou exactamente o oposto dele. O meu pai trabalha como banqueiro, é muito mais novo do que parece, é demasiado realista e demasiado obcecado pelo trabalho. Nunca pára em casa e quando está nem se nota a diferença, porque está sempre enfiado no escritório. Raramente fala connosco, comigo e com os meus três irmãos. Também são todos muito diferentes de mim, além de serem mais velhos e igualmente realistas e frios, temos maneiras muito diferentes de pensar.
Parece que quando crescemos, a nossa personalidade e maneira de agir, muda radicalmente.
Sempre me dei muito bem com o meu irmão, Pedro. Sempre fomos grandes amigos.
Conforme crescia, sentia que teria sempre alguém do meu lado, para me apoiar, para me dar aquele “empurrãozinho”!
Íamos para todo o lado juntos, ao cinema, passear de bicicleta, à praia. Foi o Pedro que me ensinou a ouvir música e a saber interpretá-la. Foi o Pedro que me deu o gosto pela viola e que me ensinou quase tudo o que sei. Foi ele que me ajudou a olhar para a vida com outra perspectiva. Agora o Pedro é um homem de negócios, bem sucedido, com uma vida estável. Tornou-se uma pessoa completamente agarrada ao trabalho e sem tempo para mais nada, nem para mim…Enfim cresceu, ficou um adulto total!! Sinceramente, no meu ponto de vista, crescer e tornar-se adulto, no verdadeiro sentido da palavra, tornar-se uma pessoa fechada no seu pequeno mundo, sem tempo para o exterior, para o que há lá fora, para a vastidão de surpresas que há para desvendar, é a pior coisa que me poderia acontecer! Pensando bem… até quando era pequena adorava o filme do Peter Pan e da terra do nunca… é o filme que me descreve na perfeição! Recuso-me a crescer, e a me transformar numa pessoa meia morta, com uma mente tão fechadinha como uma concha…
Agora, quando vejo o Pedro, está sempre com aquele ar cansado e com os olhos tristes e perdidos, mas continua a sorrir e a dizer-me: “Então linda, tudo bem?”
O meu pai diz que sou muito infantil e imatura só porque não quero passar o resto da minha vida metida num escritório escuro e barulhento, com a cara especada à frente dum computador e a receber constantemente telefonemas de pessoas que nem sequer conheço! Não, obrigada!! Prefiro passar horas a fio, como agora, sentada na areia de uma praia deserta a observar o sol de um amarelo alaranjado, a mergulhar no mar azul-escuro. Senão aproveitarmos agora a vida e tudo o que ela tem para nos oferecer, quando o faremos?
Sou, definitivamente, a “ovelha negra” da família! Tenho um piercing no nariz, vou a todas as manifestações ou protestos que tenham a ver com a protecção dos animais ou do ambiente. Não me preocupo minimamente com o que visto e viajo muitas vezes para várias partes do mundo. Numa dessas viagens, aventurei-me a ir à Africa do Sul, ao Zimbabwe, onde encontrei um pequeno bicho, um suricata, que me acompanha para todo o lado. É assim um animal parecido com o Timon, do filme do “ O Rei Leão”.
Acho que o meu pai só me atura estas maluqueiras, porque de certo modo, o faço lembrar a minha mãe. Ela era assim como eu, decidida, aventureira e com uma enorme vocação para ajudar os outros…Como sinto a falta dela… Consigo lembrar-me, perfeitamente, do dia em que ela morreu… Era um dia quente de Verão e como de costume, cheguei tarde a casa, tinha estado na praia com o Pedro, tinha sido um dia excepcional. O telefone tocou estridente e o meu pai atendeu, apressado. As feições foram-se alterando ao longo do telefonema e eu soube desde logo, que algo de errado se passava. A minha mãe tinha morrido num dos violentos ataques na Guiné-bissau. Estava lá como voluntária, a ajudar no que podia.
Incrivelmente, não chorei. Não senti nada. De facto, acho que o meu cérebro deixou de trabalhar, de transmitir informação. Instintivamente, peguei na mão do meu pai e do Pedro e levei-os à praia. Tivemos lá o resto da noite, a olhar para a lua, e para o seu incandescente reflexo no mar, agora negro. Não falámos. Não dissemos uma única palavra. Simplesmente, ficámos ali, à espera do amanhecer.
Porém, quando me lembro da minha mãe, não fico triste, nem desanimada. Incrivelmente, só fico com ainda mais força para viajar, conhecer o mundo, ajudar quem precisa…
Não me arrependo dum único dia que me zanguei com ela, em que discutimos ou nos chateámos ( até porque a maior parte das vezes, eu tinha razão!). Não me arrependo quando, ás vezes , me lembro dos seus defeitos e me irrito profundamente com eles.
A maior parte das pessoas tem aquela mania inevitável de quando alguém querido morre, de só se lembrar das coisas boas, dos bons momentos, das qualidades…
Talvez seja por isso, que não sinto tanto a falta da minha mãe, como toda gente acha que eu devia sentir. Aceito-a e penso nela como a pessoa que era: com as suas coisas boas e más. Assim, até parece que ela não morreu, parece que está apenas a fazer uma daquelas viagens e que vai voltar, brevemente, para me dar um sermão e dizer que não posso ter aquele bicho em casa…

1 Comments:
Parabéns!!! Uma nova estrela começa a surgir no céu dos murmúrios (ou será da blogoesfera?).
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