Escrever é um modo banal de transpormos tudo o que sentimos cá pra fora. Um modo simples para nós, meros mortais, trazermos ao de cima algo superior, que vai para lá da barreira real, mesquinha, do nosso dia-a-dia. Os sentimentos surgem como um golpe de magia, assim do nada, e é isso que os torna tão especiais, tão distintos. A amizade, o amor, a generosidade, o ódio, a raiva, a ganância têm valor próprio e aparecem sem aviso, não exigindo recompensa nem tendo preço marcado. A emoção, o sentir, é algo extraordinário e maravilhosamente misterioso.
É bom observar o sol alaranjado a pôr-se no mar azul escuro enquanto as ondas originam aquele som, aquela melodia que nos faz fechar olhos devagarinho para sentir tudo o mais intensamente possível. É bom ouvir atentamente aquela música vezes sem conta, não porque é famosa, não porque está na moda, mas porque nos toca de algum modo e nos faz sentir vivos. É bom chorar compulsivamente quando tudo parece estar errado. É bom sorrir, sem pensar, quando tudo corre bem. Acima de tudo é bom saber que tenho uma maneira de deitar tudo cá pra fora. Quando escrevo, quando a caneta passeia sozinha, decidida, nas linhas definidas do meu caderno, posso criar uma amostra de tudo o que sinto, de toda a confusão que se passa cá dentro. Posso inventar a emoção, transformá-la, moldá-la a minha maneira. A escrita é uma arte e tal como a pintura, a música ou a dança, é expressar, é explodir, é abrirmo-nos do modo mais puro e inocente. É complicado mostrarmos assim a nossa verdadeira essência porque os meios nem sempre são os ideais. Mas é gratificante saber que após tão esforçada exposição, há uma posterior compreensão. Porque ninguém gosta de se sentir só. É bom quando somos entendidos ou pelo menos ouvidos com a devida atenção. E já se dizia: “é melhor caminhar acompanhado na escuridão, do que sozinho na luminosidade intensa”.

1 Comments:
O Que é Escrever ?
Escrever é isto: comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo, que é sempre experimentado nos povos como uma infusão de laboratório, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (não de livraria, mas de indignação social profunda) é aquele que protege os homens do medo: por audácia, delírio, fantasia, piedade ou desfiguração. Mas porque a poética precisão de dum acto humano não corresponde totalmente à sua evidência. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever é um pouco corrigir a fortuna, que é cega, com um júbilo da Natureza, que é precavida.
Agustina Bessa-Luís, in 'Contemplação Carinhosa da Angústia'
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