céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Saudade

A saudade é um sentimento tão horrível e tão doce ao mesmo tempo. Traz dor por falta de bons momentos e traz paz e harmonia pela nostalgia intensa que provoca. É definitivamente bom poder recordar as coisas boas do passado, os momentos vividos, mas é igualmente doloroso ter a plena consciência que nada volta atrás e que antigas sensações não podem ser revividas.
A palavra saudade, o nome para o sentimento em si, só existe na nossa língua, em português e talvez seja por isso que o nosso povo é tão nostálgico e dotado duma melancolia peculiar. Vivemos um pouco mais de lembranças do passado do que do presente…
Até a nossa “imagem de marca”, o nosso tão conhecido fado, fala essencialmente da saudade, da tristeza e contém uma mágoa profunda, uma mágoa tão genuína, quase que doce. A guitarra canta, chorando e uma voz sentida expõe-se inocentemente.
Devo admitir que são muitas as vezes em que dou por mim a pensar no que já passou, meio tristinha e com uma “lágrima no canto do olho”! Não devia ser assim. Devia aproveitar cada dia, cada momento ao máximo, mas em vez disso passo grande parte do tempo a pensar no que já era. Mesmo assim acho que a nostalgia pode ser boa quando na dose equilibrada. É bom pensar nos momentos, nas sensações que nos marcaram. É bom ficar assim, entre este mundo e o outro, instável entre dimensões temporais distintas. E depois acordar para a realidade com mais força do que nunca de fazer tudo do bom e do melhor, sem arrependimentos nem remorsos, para que as lembranças valham sempre a pena recordar.

1 Comments:

At 3:02 AM, Anonymous Anônimo said...

Nova Feira da Ladra

É na Feira da Ladra que eu relembro
uma toalha velha, toda em linho,
que já serviu uma noite de Dezembro,
e agora cheira a Setembro,
como o Outono sabe a vinho.
Não valem muito mais que dois pintores
os quadros das paisagens
que eu já sei,
mas valem, pelos frutos, pelas flores
que em São Vicente das Dores,
fora de mim, eu pintei.

O que é que eu vou roubar à Feira?
Um beijo de mulher trigueira.
Aqui um coração, ali uma gravura.
É a Feira da Ladra ternura.
O que é que eu vou trazer da Feira?
Um corpo de mulher braseira.
Aqui está um lençol, bordado como dantes.
Esta Feira da Ladra é dos amantes.

E na Feira da Ladra nos vingamos
dum pouco desse tempo que morreu.
Em cada botão velho que compramos
há sempre uma corja de amos
que em Abril, Abril venceu.
Agora não compramos velharias,
tudo passado é lastro do futuro.
Nascemos para o sol todos os dias,
na nossa Feira da Ladra
já não há ladrões no escuro.

O que é que eu vou roubar à Feira?
Um beijo de mulher trigueira.
Aqui um coração, ali uma gravura.
É a Feira da Ladra ternura.
O que é que eu vou trazer da Feira?
Um corpo de mulher braseira.
Aqui está um lençol, bordado como dantes.
Eis a Feira da Ladra dos amantes.

Música: Frederico de Brito
Letra: Ary dos Santos

 

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