na pele de outrem
A noite tinha acabado, finalmente e toda aquela loucura e euforia, também. Olhei para trás e suspirei, estava bastante cansado. Ainda consegui ver a cara de um deles a saltar para fora da janela e a gritar palavras soltas ao ritmo da música ensurdecedora. Felizmente há elevador – pensei eu – ainda com batidas fortes a soarem ao meu ouvido. Cheguei a varanda, sentei-me no chão e encostei a cabeça contra a parede. Peguei num cigarro e iniciei o meu ritual. Primeiro observei, atento, todas as luzes que iluminavam a cidade , depois fechei os olhos e escutei vigilante. Nada. O silêncio total. Olhei para a janela do prédio em frente. Já era comum. Uma mulher com os seus trinta e tal anos sentava-se no sofá grande, azul-escuro, tirava os sapatos altos, massajava os pés vagarosamente como que para aliviar um dia de trabalho desgastante (ou quem sabe uma alma dorida) e depois pegava numa moldura pousada em cima duma pequena mesa mesmo do seu lado esquerdo. Olhava, sorria, chorava. E voltava a chorar. E eu ficava a olhar, perplexo. Podia adivinhar o que ia fazer a seguir. Vai atar o cabelo e limpar a cara com as mangas da camisola disse eu para mim mesmo. E assim o fez. Depois levantou-se, pousou a moldura e apagou as luzes. Fixei o meu olhar para o andar a seguir a esse. Uma velhota sentada numa poltrona enorme, desgastada pelo tempo via televisão desinteressada enquanto fazia tricô a uma rapidez alucinante e de vez em quando ainda arranjava tempo para endireitar os óculos que deslizavam vagarosamente pelo nariz comprido, enrugado. Aquele barulho de chaves tão familiar despertou-me e desta vez foquei a minha atenção para lá para baixo, para o passeio. Um homem de feições brutas, cabelo curto encaracolado, e sobretudo grande, pesado, andava aos zig zags cantarolando, rouco músicas do século passado. Agitava o molho de chaves que tinha na mão, de quando em quando, e dizia sempre baixinho em tom de canção “Amor, não voltes atrás no tempo, porque o tempo não volta atrás.” Tantos anos a ouvir horas e horas professores aclamados de sábios e a única coisa que alguma vez me pareceu lúcida na vida foi dita por um desconhecido, um bêbedo. Bastante irónico.
Gosto de viver a vida dos outros. Gosto de me sentar aqui a observar o que fazem, os seus gestos e acções. Gosto de imaginar o que são e o que sentem. Não é que não goste da minha vida, não é que seja monótona, mas por momentos é estranhamente bom descansarmos um pouco de sermos quem somos para nos pormos na pele de outrem. Experimentarmos outras sensações, vermos tudo de outra maneira, enfim não sermos nós. Aquele rapaz que fuma um cigarro, descansado, que olha indiferente para a noite escura que o abraça intensamente, pensará ele como eu?

2 Comments:
Eu não sou eu nem sou o outro
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Mário de Sá Carneiro, Indícios de Oiro
ta mttttttttttttt kido :D! dsclpa la miga os meus cmntarios serem smpre akela base repetitiva... :S mas e o k s arranja!
axo k tds nos nem k seja 1 vex desejams ser e viver a vida d outras pexoas...nem k seja so pra saber cmo é poder penxar doutra maneira, cmo sera xeirar e ouvir doutra maneira e sentir o corpo difernte...! eu trokava ja cntigo! sua porka! :P
mais 1 vex... escreves mt bem...
bjinhux***
i luv u!
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