Romeu e Julieta
Pôs um daqueles chapéus esquisitos, fechou os olhos para se concentrar, depois fixou-os em mim, e sorriu, docemente. Eu permaneci séria e atenta – não o queria pôr nervoso. Ele pegou no livro e abriu-o numa página marcada, pré-definida. E começou, forçando voz fina e delicada:
“Dize-me: como vieste tu até aqui e para quê? Os muros do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será para ti a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.”
De gestos graciosos, dramáticos, frágeis e de uma voz fina, aguda passou a uma postura firme, decidida, a uma voz forte, grave, apaixonada:
“Transpus estes muros com as leves asas do amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidades de fazer, ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.”
E ele mudava de personagem, de pessoa, de carácter com um dom próprio e genuíno que me fazia sempre ficar de peito inchado, de orgulho.
“Se eles te vêem, matar-te-ão” – disse suplicando com os olhos a brilharem, a transporem o sentimento tão legitimamente falsificado.
“Ai! Há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra sua inimizade.”
Já meia envolvida na história, na emoção, revelei a minha atenção acumulada de todas aquelas tardes passadas juntos:
“Por nada deste mundo que queria que te vissem aqui” – podia sentir a minha cara a corar, a pouco e pouco e apesar do inicial sinal de surpresa dele, não tinha dúvidas que tinha gostado.
Pegou na minha mão de repente, ajoelhou-se mesmo à minha frente. Deixou cair o livro, desinteressado, respirou fundo e lançou-me um olhar forte e penetrante que me fez fraquejar por momentos.
“O manto da noite, oculta-me aos olhos deles. Mas se tu, me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse, faltando-me o teu amor.”
Sinceramente, conseguia sentir uma lágrima a nascer, a querer rolar de felicidade, de uma explosão de sentimentos especiais. Mas, felizmente, evitei-a. Seria vergonhoso deixar cair uma lágrima que fosse à frente dele. Ficamos sérios. Olhámos um para o outro durante muito, muito tempo. Quer dizer, se calhar foram meros segundos, insignificantes minutos, mas para mim, o tempo tinha parado só para nos apreciar, só para saborear aquele momento.
Pareceu combinado. Lançámos uma gargalhada simultaneamente. E mais uma tarde era passada a ouvi-lo declamar Shakespeare, mais precisamente “Romeu e Julieta”. Ele gostava de o fazer perto de mim (dizia que se sentia à vontade, comigo lá) e eu gostava de ouvir, de ver, de sentir, tudo o que à volta dele surgia, toda aquele mundo irreal que ele inventava, que ele moldava à sua maneira. E cada vez me sentia melhor nesse mundo irreal, nessa fantasia magicada por outrem. Cada vez sinto mais que pertenço a esse mundo onde tudo é diferente, extraordinário. Deram-me uma vida, mas escolho outra… pode ser?

1 Comments:
Quantas vezes queremos mudar de cenário ou de argumento? Quantas vezes a história parece mal contada ou o final está longe de ser feliz? Muitas vezes. Muitas vezes ecoa nas nossas cabeças a banda sonora da vida que nos passa à frente.
“No fim de festa onde todos sabemos quem somos
ou que não se quer lembrar ou quem precisa de estar
perdido noutro sonho
a mesmo noite o mesmo copo o mesmo corpo
a mesma sede que não sabe secar,
onde se encontra sem se procurar
onde se dança o que estiver a tocar,
muito fumo, muito fogo,
muito escuro onde somos o que queremos
quase somos o que queremos
quase fomos o que queremos...”
Quando as coisas nos correm mal lá está ela “…quase somos o que queremos, quase fomos o que queremos…”.
A vida que nos deram (ou que nos calhou em sorte) pode nem sempre ser a melhor, mas há sempre uma Julieta (ou um Romeu) que pode fazer mudar a música:
“O espaço tem o volume da imaginação
Além do nosso horizonte existe outra dimensão
O espaço foi construído sem princípio nem fim
Meu amor, tu cabes dentro de mim
O meu tesouro és tu
Eternamente tu”
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