As palavras tropeçam. O coração apressa-se, receoso da, infelizmente esperada, recaída. Não sei o que te dizer. Nem como dizer. Agora que penso nisso, falar contigo antes era bem mais fácil do que o é agora. Sinto medo do que possas dizer, aliás, sinto medo dos sentimentos contrários que possamos sentir. E depois lembro-me, nostálgico e com uma inevitável pontinha de tristeza de quando tudo estava bem. Quando um beijo não chegava, quando um abraço era suficiente para nos envolver num ciclo de emoções maravilhosas. Alguma vez te disse que o teu sorriso me faz feliz? Ou que a tua presença é benéfica para a minha alma? Ou que o simples sentir o teu respirar torna a vida muito mais clara do que é…? Dizem que o amor é complexo. Eu digo apenas que é bom, quando bem sentido, o resto vem por acréscimo. A mágoa, a tristeza, a saudade alguma vez cobrirão tudo o que construímos? Todos os sorrisos, cada toque, cada palavra doce, cada olhar recheado de sentimento, cada situação passada juntos que fez valer a pena esta longa caminhada. Alguma vez, toda essa vida percorrida de mão dada com firmeza e carinho poderá ser desvanecida ou mesmo apagada por véus negros, medonhos que nos abraçam e convencem que a solidão e a mágoa são a solução? Esses véus negros, terríficos, são frágeis. Afasta-os. Alias, vamos afastá-los.
Penso em ti. Aí, parece que o tempo pára, parece que o mundo se espanta simplesmente a contemplar todos aqueles momentos que passámos. Bons e maus…e relembro que nos maus, tenho de te agradecer todo o apoio, todas as palavras certas no momento concreto e todo o doce silêncio acompanhado pela presença atenciosa. Sempre foste assim, especial. E nós sempre fomos assim, únicos. Sempre nos considerámos algo mais e o nosso sentimento, esse era utópico, deliciosamente impossível. Orgulhávamo-nos disso, enchíamos o peito de alegria e admirávamos o resto do mundo, as pessoas, lá de cima, do nosso pedestal, alcançado com tanto esforço. Mas caímos do tal pedestal. Desastrosamente. Agora apercebo-me que amar não é uma competição mas sim saber ultrapassar todos aqueles desafios que nos são propostos ocasionalmente pela vida, todos aqueles que sozinhos nunca conseguiríamos ultrapassar. Preciso da tua ajuda, do teu sorriso, do teu toque, da tua voz, da tua presença, de todos aqueles pormenorzinhos a que me habituei. Preciso daqueles momentos juntos, da felicidade sentida perto de ti. Preciso da tua simples existência.
Agora, diz-me, por favor, abre a tua alma, despe-a de preconceitos, de remorsos, de mágoas, de lembranças, de tudo o que te assombrar. Por momentos esquece tudo, deixa o coração bater apressado, deixa as palavras deslizarem descuidadas, deixa-te embarcar pela emoção… vislumbra o presente e diz-me, sinceramente, diz-me, agora: A mágoa, a tristeza, a saudade alguma vez cobrirão tudo o que construímos?
