céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

sexta-feira, novembro 25, 2005

sono profundo

Lembro-me de um dia te ter pedido para ficar. Lembro-me de te ter olhado e de ter suplicado com o olhar que não me abandonasses, mas (e digo-o com dor) fizeste-o. Abandonaste-me para sempre. Sem uma carta, um adeus, um sinal, algo que me preparasse para a tragédia que então sobre mim se abatia. Na altura não gritei, não senti a mágoa nem a dor ou a solidão, para dizer a verdade, não senti nada. Talvez um friozinho nas costas por causa da corrente de ar que a porta da cozinha entreaberta provocava, talvez a pele arrepiada, mas mais nada. Os dias passavam e o mesmo acontecia. O vazio instalava-se. Até que uma noite como todas as outras em que me sentava com o caneca de chá quente na mão a ler um livro me apercebi. E chorei, muito… até não haver mais lágrimas para escoar tal dor, até não haver mais maneira de suportar o que se passava, até deixar cair a cabeça pesada, cansada na almofada e sonhar contigo.
Muitas são as vezes em que penso o que será que está para além da morte e de entre o role de perguntas que se segue a que mais me indigna é se estarei morta sem saber e realmente, faz alguma sentido. Desliguei-me do mundo e de todo o entusiasmo que é “viver”, pura e simplesmente já não interessa. Olho para os outros, vejo-os, sinto-os, sei o que estão a pensar e os movimentos que vão tomar, porque os observo com tanta minúcia. É surreal esta sensação de estar presa ao meu próprio corpo, como se ele me aprisionasse e a minha alma não fosse suficientemente poderosa e rebelde para se insurgir. É frustrante, é triste. Já nem o espelho da alma consegue espelhar o que vai cá dentro. Até esses tão fiéis mensageiros se deixaram abater pelo caminho.
Ele passa por aqui de vez em quando e arrebata-me a alma e o coração como sempre o soube fazer. Pega-me na mão olha-me com carinho… e nunca com pena. Pede desculpa pelos erros, vangloria as boas acções e ri-se sozinho das nossas desventuras. Umas vezes brinca, outras vezes abre-se de alma nua, a mágoa rasga o coração frágil e pede perdão por me ter deixado...e eu perdoo. Dessas vezes só quero romper esta armadura e voltar para ele de braços abertos. E não consigo.
Em dias normais como chamo aos vividos no passado, nunca pensava muito. Aliás pensava, mas talvez não com esta profundura. Penso no que não vivi e no que vivi demais. Penso nos meus erros, nos bons momentos, nos risos, nas palavras. Mas acima de tudo penso, naquele dia em que tudo aconteceu, em que fiquei presa dentro de mim mesma.O vidro embaciado, o carro a deslizar sozinho, o duro silêncio da tragédia, a alma confusa... Quando esboço sequer um ligeiro pensamento relacionado com este assunto, tudo se apaga, é-me omitido. Afinal é melhor assim. Sem lembranças não há dor (ou supostamente não deveria haver).
A uma pessoa de alma negra como a minha se tornou não devia ser atribuída a esperança, que ultimamente escasseia. Mas tenho-a por muito pouco que acredite nela. Acredito que vou acordar um dia, levantar-me, aproximar-me devagar da janela sorrindo para o sol lá fora que alegra a minha pele fria e esbranquiçada. É doloroso sentir algo tão longe e tão perto ao mesmo tempo. As contrariedades nunca se deram bem, muito menos neste ponto. Mas para sentir o mais perto possível deste “longe-perto” da minha alma perdida, tenho um truque. Fecho os olhos e passeio no passado e na expectativa do futuro, de um futuro ambíguo mas, sem dúvida, melhor que o presente. Choro, rio, abraço, corro, e brinco ao “faz de conta” mais que nunca, porque quando não há mais saída temos de inventar a felicidade ou pelo menos o razoável equilíbrio para manter a esperança que conta com a nossa fé e infundada crença de alcançar, o inalcansável.

1 Comments:

At 7:31 AM, Anonymous Anônimo said...

bem...eu acho que consegui alcançar o meu inalcansável!ao principio...meu Deus, andava tao feliz!o simples facto de ele estar ali comigo já era um milagre.mas como ser humano que sou,não deixei de sonhar,de ambicionar sempre mais e mais...e hoje,sinto que estou meia perdida...assim como a tua personagem!presa dentro dela propria,sem saber o que fazer,o que pensar...tudo,porque a tinham abandonado...eu,posso não ter sido abandonada...mas sinto-me terrivelmente só,sem saber para onde me virar,a quem pedir ajuda!!afinal de contas...parece que apesar de os opostos se atraírem,não se dão la muito bem no amor...
por isso,conto contigo e com aqueles que ainda me dão alguma alegria de viver para continuarem a alimentar o meu sorriso,a dar-me um abraço forte quando as minhas ultimas forças me estiverem a abandonar...adoro-t linda!!

(mais uma vez...os teus textos estao excelentes...e depois de mais de um ano a lê-los...ainda me consegues emocionar como mais minguem o faz...)

 

Postar um comentário

<< Home