céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

os ultimos dias de Camilo (retrospectiva)

Derramei as lágrimas gordas no papel, outra vez. Memórias de uma vida amargurada? Talvez…Um presente inconstante e pouco promissor? Provavelmente… Já nem a escrita ocasional, a minha querida fuga, o meu porto de abrigo, me conseguia proporcionar a tão desejada salvação…somente eu o podia fazer. E não queria. Ia contra todos os princípios e valores incutidos em mim desde sempre, mas há e eternamente haverá a fase em que nos rendemos ao outro lado, em que queremos experimentar “as trevas”… Era o que eu mais ansiava neste mesmo instante em que respirava ansioso, soluçando para os móveis, para o tecto, para o imóvel…
Não era fácil ver-me a desmoronar deste modo. Estar plenamente consciente que tudo o que era, tudo o que tinha construído com grande esforço se ia desfazendo aos poucos à medida que vivia o passado e o presente em simultâneo, ambos medonhos, ambos obscuros… A fuga por vezes pode ser desastrosa, era o que acontecia neste caso. Para fugir do que me atormentava, tinha de tropeçar sobre os meus princípios, tinha de vender a alma ao diabo, se assim se pode dizer.
Uma infância infeliz, amores mal amados e a perda de um bem essencial, principalmente para mim. Testemunho de vez em quando, com grande esforço, as letras a deambular inseguras, no papel, tremidas, apenas vigiadas pelas minhas mãos rugosas, cansadas, vesgas. Já não é fácil criar como antes o era. O criar sempre me saíra directo do coração e da mente, era o que me saía espontaneamente de lá e não criticava o facto, nem o temia, agora apenas me esforçava para orientar essa criação. Ela não tinha mais um transmissor, um mensageiro, como antes. Era impossível poder criar daquela maneira, era verdadeiramente constrangedor. Já não podia observar, nem espantar-me com o que lá fora se passava e muito menos podia optar pelo que se sucedia cá dentro, de mim… Os mundos opostos, o do exterior e dos sentimentos secretos estavam desagregados e confusos e como um serve sempre de apoio ao outro, neste momento sentia-me sem bases, sem orientação, sem norte.
Inspirava-me contemplá-la, observar o seu sorriso tímido (porém sempre resplandecente…). Sentava-se numa pose rígida no entanto elegante: as costas contraídas pela força da rectidão, a cabeça erguida em tom de obstinação e perseverança, o cabelo negro, comprido, como selvagem amainado, a face pura, os olhos rasgados de tal profundura, de brilho suave, caloroso… e finalmente a expressão que me revoltava cá dentro, que tanto despoletava acalmia como revolta, tanto sentido amor, como falso ódio e o sorriso misterioso mas sincero que arrebatava qualquer dos mortais. Já me fizera sofrer, mas afinal quem não sofre por amor? Aaaah… e o que eu já sofrera pelas juras de tanto amor… E agora que o amor derradeiro e a felicidade imperfeitamente bela se abatiam sobre mim, outras situações passadas e presentes tornavam a minha vida num vaguear inconstante pelas memórias, pela enfermidade do olhar. Perdia a minha fonte de inspiração aos poucos e poucos, tanto por minha causa, pela frágil situação do meu ser, como pelo nevoeiro espesso que se atravessava no meu caminho e não me deixava enxergar a luz viva da presença dela.
Pegava no papel e na caneta, decidido a acabar com toda aquela farsa que julgava ser apenas fruto do dramatismo, do impacto da situação… E a frustração regressava, acompanhada pelo desejo de deixar tudo para trás que alguma vez me fizera mover.
Fechei os olhos devagar como que para acalmar os espíritos interiores e respirei fundo a insanidade que já, irrefutavelmente, habitava dentro de mim. Procurei ansioso uma discreta gaveta de madeira incorporada na secretária onde me apoiava, moldei as minhas mãos à pequena maçaneta de ferro e abri-a com frieza. A minha salvação residia ali, naquele espaço absurdamente pequeno para tal força, tal poder, tal desgraça. Agarrei-a, a minha salvação…e, por muito difícil que parecesse, era doce e estranhamente apaziguante. Já não mais era medonho pensar em tais actos como o fora noutros tempos (tempos que já não mais relembro), há cerca de quase meio século atrás. As rugas derretiam na face negra, os olhos mingavam tristonhos e o cabelo enfraquecia e esbranquiçava em gesto de concordância com o resto do corpo. Era o meu ser que me tornava assim, sem madrugada renovadora. Era o espírito, era a mente que apodreciam o corpo dependente da salubridade mental.
Devo confessar que pensei, muito. Talvez demasiado. Talvez não devidamente. É extremamente difícil pensar sequer em fazer algo contra o qual argumentámos e lutámos quase a vida inteira. Mas agora, mais que nunca, entendia esses defensores do negativismo, da desgraça apocalíptica. E o que mais me magoava era não poder contemplar aquele seu sorriso inigualável, de tal brilho, detentor de tanta força de carácter. Desesperava, novamente. A única pessoa que alguma vez me tinha dado a tão desejada estabilidade, a deliciosa paixão, uma incomparável felicidade, que fazia ecoar os mais variados sentimentos dentro de mim… Era injusto para ela, condenável para a maior parte das pessoas, justo e a única escolha para mim…
As mãos tremelicavam assustadas, a respiração ofegante avermelhava os olhos transtornados pela loucura e mais uma vez o corpo agia sozinho, tomando conta da frágil situação. O suor deslizava insensatamente, a raiva enfurecia todos os sentidos… a salvação aproximava-se, talvez à distância de segundos, talvez de minutos ou mesmo horas, fosse como fosse, o momento aproximava-se. Levantei-me determinado, de corpo hirto, rígido, endurecido pelos músculos inevitavelmente contraídos. Chegara a hora. Nada e tudo se passava pela minha cabeça. Sentia a força a embater contra o crânio, já não havia nada a fazer, estava a chegar… Há alturas em que as duas épocas na vida se misturam como folhas caídas, apanhadas na lama e justiça torna-se inevitavelmente na ansiada vingançaAbençoadas lágrimas que como estrelas funestas pairam indecisas entre o bem e o mal… Era o amor de perdição, o que se vivia agora e no entanto a luta de gigantes ir-me-ia incorporar o olho de vidro que gerava o sangue…A suicida queda de um anjo conduzia à permanência nas trevas… e acabou.
Seria um prenúncio? - perguntariam eles. Já não valia a pena. Nada voltaria atrás.

1 Comments:

At 3:13 AM, Anonymous Anônimo said...

"Só depois de todas as revoluções virá a revolução que vale: a revolução do despojamento, da disponibilidade e do ascender à poesia, pois que somente como poeta, isto é, criador, na arte, na ciência, na técnica, na acção e na contemplação, será o homem verdadeiramente à imagem e semelhança do divino: centelha em nós do pensamento eterno."
Agostinho da Silva, Agosto 81

 

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