céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

terça-feira, março 07, 2006

As palavras tropeçam. O coração apressa-se, receoso da, infelizmente esperada, recaída. Não sei o que te dizer. Nem como dizer. Agora que penso nisso, falar contigo antes era bem mais fácil do que o é agora. Sinto medo do que possas dizer, aliás, sinto medo dos sentimentos contrários que possamos sentir. E depois lembro-me, nostálgico e com uma inevitável pontinha de tristeza de quando tudo estava bem. Quando um beijo não chegava, quando um abraço era suficiente para nos envolver num ciclo de emoções maravilhosas. Alguma vez te disse que o teu sorriso me faz feliz? Ou que a tua presença é benéfica para a minha alma? Ou que o simples sentir o teu respirar torna a vida muito mais clara do que é…? Dizem que o amor é complexo. Eu digo apenas que é bom, quando bem sentido, o resto vem por acréscimo. A mágoa, a tristeza, a saudade alguma vez cobrirão tudo o que construímos? Todos os sorrisos, cada toque, cada palavra doce, cada olhar recheado de sentimento, cada situação passada juntos que fez valer a pena esta longa caminhada. Alguma vez, toda essa vida percorrida de mão dada com firmeza e carinho poderá ser desvanecida ou mesmo apagada por véus negros, medonhos que nos abraçam e convencem que a solidão e a mágoa são a solução? Esses véus negros, terríficos, são frágeis. Afasta-os. Alias, vamos afastá-los.
Penso em ti. Aí, parece que o tempo pára, parece que o mundo se espanta simplesmente a contemplar todos aqueles momentos que passámos. Bons e maus…e relembro que nos maus, tenho de te agradecer todo o apoio, todas as palavras certas no momento concreto e todo o doce silêncio acompanhado pela presença atenciosa. Sempre foste assim, especial. E nós sempre fomos assim, únicos. Sempre nos considerámos algo mais e o nosso sentimento, esse era utópico, deliciosamente impossível. Orgulhávamo-nos disso, enchíamos o peito de alegria e admirávamos o resto do mundo, as pessoas, lá de cima, do nosso pedestal, alcançado com tanto esforço. Mas caímos do tal pedestal. Desastrosamente. Agora apercebo-me que amar não é uma competição mas sim saber ultrapassar todos aqueles desafios que nos são propostos ocasionalmente pela vida, todos aqueles que sozinhos nunca conseguiríamos ultrapassar. Preciso da tua ajuda, do teu sorriso, do teu toque, da tua voz, da tua presença, de todos aqueles pormenorzinhos a que me habituei. Preciso daqueles momentos juntos, da felicidade sentida perto de ti. Preciso da tua simples existência.

Agora, diz-me, por favor, abre a tua alma, despe-a de preconceitos, de remorsos, de mágoas, de lembranças, de tudo o que te assombrar. Por momentos esquece tudo, deixa o coração bater apressado, deixa as palavras deslizarem descuidadas, deixa-te embarcar pela emoção… vislumbra o presente e diz-me, sinceramente, diz-me, agora: A mágoa, a tristeza, a saudade alguma vez cobrirão tudo o que construímos?

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Já algum sitío... imagem... ou canção vos pareceu assim, estranhamente familiar? Há uma canção relativamente antiga que quando a oiço sinto-me bem, sinto que bons tempos foram vividos a ouvir essa canção, sinto equilíbrio e pura felicidade. Como se tudo fosse tão inocentemente simples. Mas é mesmo isso que desejamos, que tudo seja simples e puro, não é? Que a nossa vida se veja livre de todas aquelas confusões fúteis do dia-a-dia. E às vezes necessitamos destas escapatórias da realidade para nos abstrairmos da depressão, dos constragimentos e talvez, assim só provavelmente, refugiamo-nos na esperança que estas lembranças nos tragam todos os sorrisos rasgados e pedaços de felicidade um vez perdidos ou mesmo nunca alcançados.
É estranho como temos de recorrer à imaginação, ao atenuar da dura realidade para sermos plenamente felizes e nos sentirmos bem connosco mesmos. Será a realidade demasiado dura? Ou seremos nós demasiado exigentes? Aposto num bocadinho das duas. A realidade pode-nos surpreender tanto pela negativa como pela positiva. O nosso papel é aceitar os bons momentos e aproveitá-los e recorrermos de vez em quando à imaginação e ao positivismo quando o incontrolável nos parece ameaçar. Mas a maior parte das vezes as coisas não funcionam assim. Desperdiçamos as pequenas coisas que nos fazem felizes e dramatizamos quando algo corre mal. Somos muito... picuinhas! Mas essa é a natureza humana: sermos uma espécie de mártires desgraçados prontos a cumprir o seu papel num palco abandonado. Esquecemo-nos que a vida não é um palco e nós não somos nem marionetes controladas pelo destino nem actores consignados ao seu papel. Somos bem mais que isso e podemos fazer muito mais se quisermos, se quisermos mesmo trocar as voltas às maldades e azares, com um sorriso nos lábios. Não falo por experiência própria mas por ideais próprios. Dizem que o sonho comanda a vida. Pois bem, eu acredito.



"I don't want to wait for our lives to be over,
I want to know right now what will it be
I don't want to wait for our lives to be over,
Will it be yes or will it be...sorry?"

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

os ultimos dias de Camilo (retrospectiva)

Derramei as lágrimas gordas no papel, outra vez. Memórias de uma vida amargurada? Talvez…Um presente inconstante e pouco promissor? Provavelmente… Já nem a escrita ocasional, a minha querida fuga, o meu porto de abrigo, me conseguia proporcionar a tão desejada salvação…somente eu o podia fazer. E não queria. Ia contra todos os princípios e valores incutidos em mim desde sempre, mas há e eternamente haverá a fase em que nos rendemos ao outro lado, em que queremos experimentar “as trevas”… Era o que eu mais ansiava neste mesmo instante em que respirava ansioso, soluçando para os móveis, para o tecto, para o imóvel…
Não era fácil ver-me a desmoronar deste modo. Estar plenamente consciente que tudo o que era, tudo o que tinha construído com grande esforço se ia desfazendo aos poucos à medida que vivia o passado e o presente em simultâneo, ambos medonhos, ambos obscuros… A fuga por vezes pode ser desastrosa, era o que acontecia neste caso. Para fugir do que me atormentava, tinha de tropeçar sobre os meus princípios, tinha de vender a alma ao diabo, se assim se pode dizer.
Uma infância infeliz, amores mal amados e a perda de um bem essencial, principalmente para mim. Testemunho de vez em quando, com grande esforço, as letras a deambular inseguras, no papel, tremidas, apenas vigiadas pelas minhas mãos rugosas, cansadas, vesgas. Já não é fácil criar como antes o era. O criar sempre me saíra directo do coração e da mente, era o que me saía espontaneamente de lá e não criticava o facto, nem o temia, agora apenas me esforçava para orientar essa criação. Ela não tinha mais um transmissor, um mensageiro, como antes. Era impossível poder criar daquela maneira, era verdadeiramente constrangedor. Já não podia observar, nem espantar-me com o que lá fora se passava e muito menos podia optar pelo que se sucedia cá dentro, de mim… Os mundos opostos, o do exterior e dos sentimentos secretos estavam desagregados e confusos e como um serve sempre de apoio ao outro, neste momento sentia-me sem bases, sem orientação, sem norte.
Inspirava-me contemplá-la, observar o seu sorriso tímido (porém sempre resplandecente…). Sentava-se numa pose rígida no entanto elegante: as costas contraídas pela força da rectidão, a cabeça erguida em tom de obstinação e perseverança, o cabelo negro, comprido, como selvagem amainado, a face pura, os olhos rasgados de tal profundura, de brilho suave, caloroso… e finalmente a expressão que me revoltava cá dentro, que tanto despoletava acalmia como revolta, tanto sentido amor, como falso ódio e o sorriso misterioso mas sincero que arrebatava qualquer dos mortais. Já me fizera sofrer, mas afinal quem não sofre por amor? Aaaah… e o que eu já sofrera pelas juras de tanto amor… E agora que o amor derradeiro e a felicidade imperfeitamente bela se abatiam sobre mim, outras situações passadas e presentes tornavam a minha vida num vaguear inconstante pelas memórias, pela enfermidade do olhar. Perdia a minha fonte de inspiração aos poucos e poucos, tanto por minha causa, pela frágil situação do meu ser, como pelo nevoeiro espesso que se atravessava no meu caminho e não me deixava enxergar a luz viva da presença dela.
Pegava no papel e na caneta, decidido a acabar com toda aquela farsa que julgava ser apenas fruto do dramatismo, do impacto da situação… E a frustração regressava, acompanhada pelo desejo de deixar tudo para trás que alguma vez me fizera mover.
Fechei os olhos devagar como que para acalmar os espíritos interiores e respirei fundo a insanidade que já, irrefutavelmente, habitava dentro de mim. Procurei ansioso uma discreta gaveta de madeira incorporada na secretária onde me apoiava, moldei as minhas mãos à pequena maçaneta de ferro e abri-a com frieza. A minha salvação residia ali, naquele espaço absurdamente pequeno para tal força, tal poder, tal desgraça. Agarrei-a, a minha salvação…e, por muito difícil que parecesse, era doce e estranhamente apaziguante. Já não mais era medonho pensar em tais actos como o fora noutros tempos (tempos que já não mais relembro), há cerca de quase meio século atrás. As rugas derretiam na face negra, os olhos mingavam tristonhos e o cabelo enfraquecia e esbranquiçava em gesto de concordância com o resto do corpo. Era o meu ser que me tornava assim, sem madrugada renovadora. Era o espírito, era a mente que apodreciam o corpo dependente da salubridade mental.
Devo confessar que pensei, muito. Talvez demasiado. Talvez não devidamente. É extremamente difícil pensar sequer em fazer algo contra o qual argumentámos e lutámos quase a vida inteira. Mas agora, mais que nunca, entendia esses defensores do negativismo, da desgraça apocalíptica. E o que mais me magoava era não poder contemplar aquele seu sorriso inigualável, de tal brilho, detentor de tanta força de carácter. Desesperava, novamente. A única pessoa que alguma vez me tinha dado a tão desejada estabilidade, a deliciosa paixão, uma incomparável felicidade, que fazia ecoar os mais variados sentimentos dentro de mim… Era injusto para ela, condenável para a maior parte das pessoas, justo e a única escolha para mim…
As mãos tremelicavam assustadas, a respiração ofegante avermelhava os olhos transtornados pela loucura e mais uma vez o corpo agia sozinho, tomando conta da frágil situação. O suor deslizava insensatamente, a raiva enfurecia todos os sentidos… a salvação aproximava-se, talvez à distância de segundos, talvez de minutos ou mesmo horas, fosse como fosse, o momento aproximava-se. Levantei-me determinado, de corpo hirto, rígido, endurecido pelos músculos inevitavelmente contraídos. Chegara a hora. Nada e tudo se passava pela minha cabeça. Sentia a força a embater contra o crânio, já não havia nada a fazer, estava a chegar… Há alturas em que as duas épocas na vida se misturam como folhas caídas, apanhadas na lama e justiça torna-se inevitavelmente na ansiada vingançaAbençoadas lágrimas que como estrelas funestas pairam indecisas entre o bem e o mal… Era o amor de perdição, o que se vivia agora e no entanto a luta de gigantes ir-me-ia incorporar o olho de vidro que gerava o sangue…A suicida queda de um anjo conduzia à permanência nas trevas… e acabou.
Seria um prenúncio? - perguntariam eles. Já não valia a pena. Nada voltaria atrás.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

outra vez as belas das campanhas

E chegaram outra vez as eleições. As infinitas promessas, os discursos emproados, a má língua que os partidos espalham uns pelos outros. E eu tenho de estar outra vez, à hora do lanche, a ver o tempo de antena que por sinal dá em em todos os quatro canais...Mas isto é o menos. As bocas constantes duns, as expressões terríficas doutros, o buburinho sobre o ressonar de outro ainda... Mas tirando as características mais adoradas pelos jornalistas (que sinceramente lhes fica mal insistirem tanto nestas percalços) há ainda outros problemas que (infelizmente) se verificam todos os anos e que se devem ter constatado em toda a história a partir do momento em que alguém desejava persuadir (eu diria mais manipular...) outra pessoa para que esta através de elementos de "hipnotização" específicos aceite a tese em causa de ânimo leve. E estes elementos escondem-se muitas vezes nas sombras dos mais pequenos detalhes: as tão conhecidas promessas, que desafiam os céus, proclamadas com "patriotismo" escrito na testa tanto como "representação"...apela-se aos sentimentos das pessoas, ao palavreado complicado para atrair a multidão... está tão batido!! Porque é que ainda se cái no mesmo? Aliás porque é que os tão conceituados concorrentes não mudam de estratégia apelando à originalidade e , acima de tudo, àquela a que se chama verdade? O hábito faz o monge não é? Sempre fez... e talvez tenha de ser assim. Será que uma campanha com concorrentes íntegros, verdadeiros, realmente interessados pelo bem da Nação, teria tanta graça? Concerteza que não...Ao menos assim, esqueçemo-nos por momentos da crise que sempre ouvi falar toda a minha vida, descansamos um pouco do espírito pessimista, da desgraça dos tugas, do rótulo de coitadinhos a que estamos destinados a ter! Bem... e digo eu... ao menos coitadinhos e bem humorados!

domingo, janeiro 15, 2006

Permanecia perto dele, ainda com a infundada esperança que o tempo parasse, que o mundo girasse apenas à nossa volta. Permanecia assim, um tanto confusa por todas aquelas correntes de emoção que trespassavam o corpo perecível, em oposição às nossas almas crentes de união para todo o sempre. Sabia que não era assim, que o tempo passaria e que todos os momentos passados não passsariam disso, do passado, do pó que restaria. As almas que demasiado se querem, acabam, por tanta emoção e pelas ironias do destino, por...se separar. Mas não queria ficar triste ou amargurada, ele só merecia o meu sorriso e eu o dele. Era dependente desse sorriso, para que a vida tomasse um rumo mais certo e estável, para que a felicidade, criada, mimada por nós dois, continuasse, resistente a existir, a iluminar as nossas vidas. Sim, era essa felicidade criada só por nós dois com tanto esforço que me dava forças para continuar com a alegria explicita nos lábios.
Claro que a família, os amigos, são de uma importância definitivamente relevante, mas depois de esbarrármos com aquela pessoa que consegue parar o tempo, que parece concebida especialmente segundo todas as nossas necessidades, criamos uma dependencia inacreditável, como se toda a vida tivessemos permanecido na ignorância de que é ter alguém que esteja constantemente perto de nós para nos fazer rir, para nos afagar no seu abraço, para absorver as lágrimas salgadas que caiam sem destino. Mas é quase irónico que depois te termos esse alguém continuemos com preocupações inúteis... como a dúvida da correspondência total e absoluta, o medo de deixarmos de ser a razão de cada sorriso da outra pessoa em causa. Não nos podemos esquecer também da ansiedade, da angústia que a felicidade acabe de um momento para o outro, de que tudo o que foi guardado com tanto carinho, simplesmente, se evapore. Apesar de isso não ser possível. De acabar de um dia para o outro. Ele respondeu-me assim, decidido,às minhas questões aflitivas e eu acreditei. Acredito sempre nele.
Permanecia perto dele, ainda com a infundada esperança que o tempo parasse, que o mundo girasse apenas à nossa volta. Pelos vistos, parou...

terça-feira, dezembro 13, 2005

a incisão do pensamento

Às vezes isto, o mundo, insurge-se como uma espécie de sonho ou dimensão confusa que serve apenas para nos iludir. E nós somos como elementares marionetas que deambulam sem propósito num palco poeirento, aplaudidas pelo silêncio. Muito esquisito como tudo o que é óbvio e certo no nosso dia-a-dia rigidamente rotineiro, pode ser questionável e tornar-se assustadoramente duvidoso. Mas, e realço mais uma vez, isto acontece só às vezes. Talvez porque a mente precisa de algo para se distrair, talvez porque quero ser diferente, armar-me em intelectual e ter estas visões futuristas de um presente distinto, com o qual ninguém tinha sequer imaginado. Este é só um dos pensamentos que me ocorrem, caminhos que percorro, quando tento, mais uma vez, escrever. E depois penso porque que é que as coisas são assim e não de outra maneira, porque é que o céu é azul e não verde e como é que é possível o universo ser infinito. Pensamentos vulgares, inúteis como tentar escrever sem inspiração, como estou a fazer agora. Não devia ser permitido, escrever sem inspiração. Abrir a alma para expressar o falso. Sim, devia ser crime. Devia ser punido… com prisão perpétua! Outra das questões que me assolam de quando em quando: a prisão perpétua e com ela surgem as problemáticas da pena de morte e da eutanásia. Sinceramente, não concordo com a pena de morte. Ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém por muito grande ou grave que seja o crime que a pessoa em causa tenha cometido. É demasiado grotesco, matar assim uma pessoa com meia dúzia de injecções e um público a admirar impávido a matança, ansioso de sangue, de tragédia, de morte. Acho que a prisão perpétua é preferível. Uma pessoa sofre, pensa, repensa e quem sabe é visitada pela consciência pesada. Anos e anos fechado numa cela. Sobreviver e nunca mais viver. A morte é definitiva, não há tempo para arrependimentos, remorsos, para nada. Não há sofrimento. Sim, digam o que disserem penso que a prisão perpétua é mais justa.
A eutanásia é outra questão. Acho que em certas situações devia ser permitida, para evitar a dor não só física, como muito pior, psicológica. Pior que a morte definitiva é a morte vagarosa que chega com uma doença prolongada, por exemplo. E se alguém quer por fim ao seu próprio sofrimento, deve poder fazê-lo. Todos devem prezar pelo seu bem-estar e se esse bem-estar exigir uma passagem para outro mundo, que assim seja. Mas chega de conversas deprimentes que envolvem mortes e assuntos afins que me enegrecem o espírito… E lembro-me que agora há mais para fazer. Há que dormir e descansar sobre todo o cansaço que é reflectir (se calhar é por isso que hoje em dia não se reflecte muito… cansa...), há que fechar os olhos com a certeza que não há certezas e que haverá sempre algo para duvidar e repensar. É isso que nos faz viver, o incerto, não é?
Parece que afinal acabei por me safar da prisão perpétua…

sexta-feira, novembro 25, 2005

sono profundo

Lembro-me de um dia te ter pedido para ficar. Lembro-me de te ter olhado e de ter suplicado com o olhar que não me abandonasses, mas (e digo-o com dor) fizeste-o. Abandonaste-me para sempre. Sem uma carta, um adeus, um sinal, algo que me preparasse para a tragédia que então sobre mim se abatia. Na altura não gritei, não senti a mágoa nem a dor ou a solidão, para dizer a verdade, não senti nada. Talvez um friozinho nas costas por causa da corrente de ar que a porta da cozinha entreaberta provocava, talvez a pele arrepiada, mas mais nada. Os dias passavam e o mesmo acontecia. O vazio instalava-se. Até que uma noite como todas as outras em que me sentava com o caneca de chá quente na mão a ler um livro me apercebi. E chorei, muito… até não haver mais lágrimas para escoar tal dor, até não haver mais maneira de suportar o que se passava, até deixar cair a cabeça pesada, cansada na almofada e sonhar contigo.
Muitas são as vezes em que penso o que será que está para além da morte e de entre o role de perguntas que se segue a que mais me indigna é se estarei morta sem saber e realmente, faz alguma sentido. Desliguei-me do mundo e de todo o entusiasmo que é “viver”, pura e simplesmente já não interessa. Olho para os outros, vejo-os, sinto-os, sei o que estão a pensar e os movimentos que vão tomar, porque os observo com tanta minúcia. É surreal esta sensação de estar presa ao meu próprio corpo, como se ele me aprisionasse e a minha alma não fosse suficientemente poderosa e rebelde para se insurgir. É frustrante, é triste. Já nem o espelho da alma consegue espelhar o que vai cá dentro. Até esses tão fiéis mensageiros se deixaram abater pelo caminho.
Ele passa por aqui de vez em quando e arrebata-me a alma e o coração como sempre o soube fazer. Pega-me na mão olha-me com carinho… e nunca com pena. Pede desculpa pelos erros, vangloria as boas acções e ri-se sozinho das nossas desventuras. Umas vezes brinca, outras vezes abre-se de alma nua, a mágoa rasga o coração frágil e pede perdão por me ter deixado...e eu perdoo. Dessas vezes só quero romper esta armadura e voltar para ele de braços abertos. E não consigo.
Em dias normais como chamo aos vividos no passado, nunca pensava muito. Aliás pensava, mas talvez não com esta profundura. Penso no que não vivi e no que vivi demais. Penso nos meus erros, nos bons momentos, nos risos, nas palavras. Mas acima de tudo penso, naquele dia em que tudo aconteceu, em que fiquei presa dentro de mim mesma.O vidro embaciado, o carro a deslizar sozinho, o duro silêncio da tragédia, a alma confusa... Quando esboço sequer um ligeiro pensamento relacionado com este assunto, tudo se apaga, é-me omitido. Afinal é melhor assim. Sem lembranças não há dor (ou supostamente não deveria haver).
A uma pessoa de alma negra como a minha se tornou não devia ser atribuída a esperança, que ultimamente escasseia. Mas tenho-a por muito pouco que acredite nela. Acredito que vou acordar um dia, levantar-me, aproximar-me devagar da janela sorrindo para o sol lá fora que alegra a minha pele fria e esbranquiçada. É doloroso sentir algo tão longe e tão perto ao mesmo tempo. As contrariedades nunca se deram bem, muito menos neste ponto. Mas para sentir o mais perto possível deste “longe-perto” da minha alma perdida, tenho um truque. Fecho os olhos e passeio no passado e na expectativa do futuro, de um futuro ambíguo mas, sem dúvida, melhor que o presente. Choro, rio, abraço, corro, e brinco ao “faz de conta” mais que nunca, porque quando não há mais saída temos de inventar a felicidade ou pelo menos o razoável equilíbrio para manter a esperança que conta com a nossa fé e infundada crença de alcançar, o inalcansável.