céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

domingo, outubro 16, 2005

procurando por ti

Sentei-me nas escadas duras e enregeladas pelo Inverno rigoroso que se abate sobre nós. Mas este frio não é só da estação. É um frio doloroso que me vem da alma, agoniada. Parece que foi hoje que ela corou tímida a meus olhos, enquanto eu balbuciava palavras trapalhonas, absorvidas pela timidez. Tenho-a na minha mente como um plano de fundo. Apesar de pensar noutras coisas, ela está sempre lá com aquela expressão maravilhosa que me faz sorrir por dentro. Dormir já não é mais uma palavra integrada no meu dicionário. Vejo as televendas, leio revistas abandonadas já há muito, revisto o álbum enorme, guardado preciosamente na prateleira do quarto. Observo fotos, não com atenção, mas só mesmo por ver, já que as tenho todas rigorosamente armazenadas dentro de mim. Outras vezes, simplesmente deito-me no sofá distraído por todo este vazio desgastante. Penso nos olhos dela e no sorriso único. Penso nas covinhas, que fazia perto dos olhos amendoados, cor de mel, quando sorria vivamente. Penso na maneira como me dizia que me amava, tão séria. Penso no modo majestoso como comia muito direitinha. Penso na atenção com que eu observava as luzes cinematográficas a passearem pelo perfil lindo, radiosamente imperfeito, na sala de cinema habitual das nossas excursões aos filmes. Penso no eco das nossas gargalhadas extenuantes. Penso em como gostava de deitar a cabeça no meu colo, fechando os olhos calmamente, enquanto eu passava os dedos pelo cabelo comprido, castanho-escuro. Penso nas lágrimas amargas que por minha culpa fiz rolar no rosto de quem amo. Penso em cada momento, em cada situação e não me canso, nunca. Passo horas assim, e ultimamente, até dias.
Olho para o relógio de parede. Está na hora. Visto um sobretudo grande e velho, pendurado no bengaleiro. Está tudo em tons de cinzento, a chuva miudinha cai sem aviso. Apanho o eléctrico e sento-me num banco ao acaso. A janela está embaciada. Encosto os dedos ao vidro e os olhos melancólicos vagueiam pelas ruas. Já não controlo os movimentos do meu corpo. Há muito tempo que este já não tem dono. Saio do eléctrico decidido. Não sei para onde vou mas também não interessa. Tenho o molho de folhas seguras, apoiadas debaixo do braço. Vou espalhando-as quase que mecanicamente. Em pára brisas de carros, paredes, postes. As pessoas passam, indiferentes, e sinceramente acho que não têm o mínimo interesse em saber de que é que estes papéis tratam . É revoltante, devo confessar. Neste ponto qualquer atenção, por mais ínfima que seja, é essencial. Mas tudo bem, eu também não me interessaria por velhos papéis, meios carcomidos pisados, no chão.
O próximo destino é o café. Entro e sento-me logo na primeira mesa, de dois lugares, que parece estar sempre reservada para nós dois. O ambiente deste café deixa-me sempre uma calma incomum. Situa-se num prédio velho, tem quadros de pintores desconhecidos, espalhados ocasionalmente pelas paredes e todo o tipo de livros amontoados aqui e ali. Há velas por todo o lado e o incenso flutua inconstante. Percebo melhor que nunca porque insistia para virmos aqui, sempre que surgia a oportunidade. Posso ouvir os passos que me são familiares a dirigirem-se a mim: “O que vai ser?”- soa a voz doce acompanhada por um sorriso caloroso. Eu respondo de frase feita: “Estou à espera de alguém”. A rapariga loira, de feições estrangeiras, afasta-se com uma expressão de pena e sem dúvida de alguma confusão. Olho para as mãos cansadas e solto um suspiro profundo. Nada, como sempre. Saio lá para fora, o cheiro a incenso estava a ser respirado há tempo a mais. O anoitecer cobre a cidade de escuridão e as luzinhas de presença começam a acender-se aos poucos. Coloco as mãos nos bolsos e encolho-me dentro do cachecol que me abriga do frio. È horrível, quase maléfico e cruel pensar uma coisa destas, mas são muitas as vezes em que desejo que tivesse morrido. A morte é definitiva e irreparável, nada a faz voltar atrás. O desaparecimento é angustiante, é uma ânsia que corrói, que entristece a cada minuto, que não nos deixa respirar uma só vez, em paz. Caio sem amparo e rendo-me à solidão, à saudade, à mágoa que me tem acompanhado ultimamente. Deito as mãos à cabeça e soluço desesperado. Estas são as vezes em que caio na dura realidade, em que me apercebo que o pesadelo que vivo no dia-a-dia é mesmo verdade e não tem um final feliz aparente. As lágrimas correm, umas a seguir às outras. A noite cai, as luzes acendem, as pessoas passam. Tudo está igual e indiferente lá fora, enquanto cá dentro, dentro de mim mesmo, o mundo se vai desmoronando aos poucos.
A vida mudou, deu uma reviravolta inacreditavelmente dolorosa desde a última vez que a vi. A vida já nem se pode chamar vida. A esperança é última a morrer e por vezes lamento-o porque gostava de desistir desta ilusória procura de algo que não voltará. Gostava de poder descansar um pouco.
As palavras, as imagens, vão continuar a flutuar à minha volta, o desespero vai continuar a abraçar-me, a tristeza vai continuar a derramar lágrimas até que ela devolva a alma a este corpo esquecido, sepultado algures na calçada velha, assombrado pela noite negra, imperdoável.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Abro os olhos devagarinho e volto a fechá-los ainda ensonada. Adormeci outra vez no terraço, enterrada naquelas almofadas grandes, já envelhecidas pelo tempo, em tons de bege e castanho. Solto um suspiro profundo e olho com atenção para o horizonte. É bom ver o nascer do sol. Sempre com um efeito tão calmante e ao mesmo tempo tão majestoso, espectacular.
É bom pensar nas coisas simples da vida. São assim e pronto. Ou são boas ou são más, não há intermédios nem complicações. O nascer do sol é lindo, tão evidentemente, tão basicamente magnífico. A vida podia ser também assim, simples e bela. Seria tudo tão mais fácil não é? Dou por mim muitas vezes com este tipo de pensamentos e não porque a minha vida seja tão complicada assim, mas mais porque eu a torno complicada. Aliás, acho que todos nós fazemos um pouco isso, em quase todos os obstáculos que nos são impostos, ocasionalmente, pela vida… É uma questão de tendência natural para o dramatismo, talvez. Os jornais, os telejornais, os programas de televisão têm todos muito esta tendência para transformar toda e qualquer coisa numa tragédia. E as pessoas vêm e gostam. É estúpido mas uma parte de nós, gosta realmente deste impacto que é ver ou ouvir que alguma catástrofe sucedeu. Sorriu ao de leve para mim mesma… “Mente mesquinha, essa dos humanos…” Entro dentro de casa e ligo a aparelhagem, ainda é muito cedo, por isso ainda não está a dar nada de especial na rádio. Volto-me a sentar no grande sofá de palha e pouso os pés devagarinho na mesa de vidro que está mesmo à minha frente. Ouço a música com esforço (está mesmo muito baixinha…). Não é nenhuma canção conhecida, é apenas um daqueles sons a que eu chamo “sons de fundo”. Não são para apreciar nem escutar com atenção, são só apenas para distrair a mente. É bom quando nos apercebemos que esta música em tons baixos se mistura com o barulho característico do acordar prá vida… O sol está a nascer e só agora é que tudo desperta da acalmia e mistério da noite para o contentamento e clareza do dia. Querer parar num momento, viver num espaço temporal específico, indefinidamente. Já alguma vez vos aconteceu? Parar, ser feliz, completamente feliz. A mim acontece-me frequentemente. Querer parar e absorver ao máximo aquele momento único de pura felicidade e equilíbrio interior. É o que está a acontecer agora. Quero parar assim, deitada no sofá no meio do nada, sem mais ninguém, apenas eu e o nada que no fundo é tudo. O despertador toca. Acordei do meu descanso e automaticamente dirigi-me para dentro de casa. Tomei um duche rápido e vesti a primeira coisa que me apareceu a frente. Mais uma rotina, mais um dia como os outros. Parar para ser feliz, completamente, simplesmente feliz, passou a ser secundário. Não, deve ser só impressão minha.