céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

quarta-feira, dezembro 29, 2004

a alma e o corpo

Muitas são as vezes em que me surpreendo comigo própria, em que fico a pensar assim, longe de tudo o resto, a pensar o que somos, o que quererá dizer ter uma personalidade, um certo carácter. Afinal o que será isso de ter qualidades ou defeitos, de ser simpático ou não, carinhoso... donde surge tudo isto?? Primeiro afirmo convictamente, que tudo vem da alma, da nossa verdadeira essência, uma forma verdadeiramamente reconfortante de ver as coisas porque se tudo vem da alma, pronto já tenho a resposta para a minha questão, mas depois, não sei.... Envolvo-me noutra série de pensamentos confusos: o que é alma? não é uma coisa física como o cérebro ou o coração, é algo que desconhecemos por completo, é o campo em que neste momento temos uma ignorância total. Não, isto da alma, é muito complicado!! Depois penso, já de uma perspectiva mais científica, que nós somos o que herdamos, ou seja, os genes que passam de pais para filhos, trazem informação muito importante, que faz com que os os filhos sejam, de vários modos (físico e psicológico), semelhantes aos seus pais. Sim, esta resposta é convincente, não haja dúvida. As questões aparentemente infindáveis atormentam-me novamente. Se tudo vem dos genes, se tudo é hereditário, então isso quer dizer que quando choramos, ou rimos, quando experimentamos sentimentos de inveja ou ciúme, são apenas os nossos genes a reagir, isto não são mais que reacções do nosso corpo! Logo, deixando de ser sentimentos, passamo-nos a igualar a meros animais, possuindo apenas um Q.I. muito superior. Não me contento, novamente. Melhor, acho que nem sequer quero acreditar nesta forma de ver as coisas. É triste e extremamente desanimador pensar que o amor, a amizade, tudo para o que realmente vivemos, são simples manifestações do nosso corpo, coisas que não dependem de nós, do que somos. Uma frase que ecoou na minha cabeça foi quase como que uma luz ao fundo do túnel, que me deu uma solução relativamente satisfatória. Sempre ouvi dizer que somos o que os outros fazem de nós. Pois bem, sei que é uma resposta muito geral, e que definitivamente não satifaz as mentes mais brilhantes e sábias. Mas eu, sendo uma mera rapariguinha de quinze anos, que muito pouco ou nada sabe sobre o mundo, fico feliz com esta resposta que, à pressa e com uma necessidade tremenda formulei para mim. Reparem, muitas vezes presenciamos casos de famílias "modelo", que parecem quase perfeitas. Se a "culpa" fosse só dos genes, uma família teria toda exactamente as mesmas características, mas não. Em todas as famílias "modelo" há sempre aquele membro, aquela parte que é menos bem sucedida, ou vice-versa. Porquê? Porque não é só a família e os genes que nos tornam no que somos. As influências do meio são muito importantes para o desenvolvimento do nosso ser. Assim, o meio em que vivemos, o tipo de pessoas com quem convivemos todos os dias, são factores definitivos para o moldar da nossa personalidade. Nós somos o que os outros fazem de nós. Sim, agora sinto-me mais calma. Pelo menos no meu caso fico contente com esta resposta. Sempre tive os meus pais que me ajudaram e apoiaram nos momentos mais dificéis, sempre tive os meus irmãos lá, quando precisei e além de ter uma família espectacular, tenho imensos amigos excepcionais em quem confio plenamente. Por isso, atentando à minha longa explicação, obrigada a todos que me tornaram a pessoa que sou hoje.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Pequeno conto de natal

Subi as escadas com esforço. Tinha sido um dia de trabalho estafante. Percorri o corredor, vagarosamente. Conseguia ouvir o eco dos meus passos, pesados. Fechei a porta num estrondo. Finalmente em casa, pensei. Preparei um chocolate quente e sentei-me na enorme poltrona, mesmo à frente da televisão. E assim passava mais um Natal. Nunca dei muita importância a esta época. Na verdade, acho que só se aprecia mesmo o Natal, quando se é criança. A grande magia e mistério que o Pai Natal transmite, as prendas e o espírito natalício em si, são sem dúvida característicos das mentes mirabolantes e sonhadoras da criançada. Encostei a cabeça atrás. Sempre fora uma pessoa muito independente e que não liga a sentimentalismos nem coisas assim. Mas agora, sentia-me como já não me sentia há muito tempo. Sentia-me só. As famílias festejavam juntas, trocavam prendas, lá fora ouviam-se cânticos de natal. E aqui estava eu a olhar, impávida, para a televisão. Levantei-me dum ímpeto, vesti o casaco e saí para a rua. Andei, assim sem destino, durante um longo período de tempo. Olhei para a frente. Tinha chegado a um ringue de patinagem. Sentei-me num banco de jardim e observei com atenção o que se passava, à minha volta. Lembrei-me de quando costumava ir patinar no gelo com o meu pai. Sorri. Eram bons tempos, esses. Éramos muito ligados, eu e o meu pai. Fazíamos tudo juntos. Mas quando mudei de casa, tudo mudou. Arranjei trabalho, casa e afastei-me muito da minha família. Tinha um orgulho enorme na minha autonomia e força de vontade mas agora, sentia-me magoada e extremamente triste. Um sopro de frio horrível fez-me desviar destes pensamentos. Estava a nevar. Pela primeira vez, senti que aquelas canções de natal que ouvia, significavam alguma coisa. Corri para uma cabine telefónica, instintivamente.
- Estou pai, Feliz Natal…

sábado, dezembro 18, 2004

Rascunhos de uma vida normal

Aqui estou eu sentada na areia molhada, bem perto do mar como quase todos os fins de tarde. Faça chuva ou faça sol, pra cá venho eu olhar para o horizonte, ao som da música que faço, ao som das tremidas letras que invento e componho ao longo de todo o dia.
Não me consigo concentrar numa coisa só. Quando estou a estudar, ou a ver televisão, qualquer coisa, estou sempre a pensar nalguma estupidez ou insignificância ou mesmo em questões existenciais como “porque estamos aqui” ou “quem somos nós”. O meu pai costuma usar termos como “aluada”ou “sonhadora” para me definir, tudo isto porque tenho sonhos e ambições e tenciono marcar a diferença neste mundo. Ou seja, ele critica-me, porque sou exactamente o oposto dele. O meu pai trabalha como banqueiro, é muito mais novo do que parece, é demasiado realista e demasiado obcecado pelo trabalho. Nunca pára em casa e quando está nem se nota a diferença, porque está sempre enfiado no escritório. Raramente fala connosco, comigo e com os meus três irmãos. Também são todos muito diferentes de mim, além de serem mais velhos e igualmente realistas e frios, temos maneiras muito diferentes de pensar.
Parece que quando crescemos, a nossa personalidade e maneira de agir, muda radicalmente.
Sempre me dei muito bem com o meu irmão, Pedro. Sempre fomos grandes amigos.
Conforme crescia, sentia que teria sempre alguém do meu lado, para me apoiar, para me dar aquele “empurrãozinho”!
Íamos para todo o lado juntos, ao cinema, passear de bicicleta, à praia. Foi o Pedro que me ensinou a ouvir música e a saber interpretá-la. Foi o Pedro que me deu o gosto pela viola e que me ensinou quase tudo o que sei. Foi ele que me ajudou a olhar para a vida com outra perspectiva. Agora o Pedro é um homem de negócios, bem sucedido, com uma vida estável. Tornou-se uma pessoa completamente agarrada ao trabalho e sem tempo para mais nada, nem para mim…Enfim cresceu, ficou um adulto total!! Sinceramente, no meu ponto de vista, crescer e tornar-se adulto, no verdadeiro sentido da palavra, tornar-se uma pessoa fechada no seu pequeno mundo, sem tempo para o exterior, para o que há lá fora, para a vastidão de surpresas que há para desvendar, é a pior coisa que me poderia acontecer! Pensando bem… até quando era pequena adorava o filme do Peter Pan e da terra do nunca… é o filme que me descreve na perfeição! Recuso-me a crescer, e a me transformar numa pessoa meia morta, com uma mente tão fechadinha como uma concha…
Agora, quando vejo o Pedro, está sempre com aquele ar cansado e com os olhos tristes e perdidos, mas continua a sorrir e a dizer-me: “Então linda, tudo bem?”
O meu pai diz que sou muito infantil e imatura só porque não quero passar o resto da minha vida metida num escritório escuro e barulhento, com a cara especada à frente dum computador e a receber constantemente telefonemas de pessoas que nem sequer conheço! Não, obrigada!! Prefiro passar horas a fio, como agora, sentada na areia de uma praia deserta a observar o sol de um amarelo alaranjado, a mergulhar no mar azul-escuro. Senão aproveitarmos agora a vida e tudo o que ela tem para nos oferecer, quando o faremos?
Sou, definitivamente, a “ovelha negra” da família! Tenho um piercing no nariz, vou a todas as manifestações ou protestos que tenham a ver com a protecção dos animais ou do ambiente. Não me preocupo minimamente com o que visto e viajo muitas vezes para várias partes do mundo. Numa dessas viagens, aventurei-me a ir à Africa do Sul, ao Zimbabwe, onde encontrei um pequeno bicho, um suricata, que me acompanha para todo o lado. É assim um animal parecido com o Timon, do filme do “ O Rei Leão”.
Acho que o meu pai só me atura estas maluqueiras, porque de certo modo, o faço lembrar a minha mãe. Ela era assim como eu, decidida, aventureira e com uma enorme vocação para ajudar os outros…Como sinto a falta dela… Consigo lembrar-me, perfeitamente, do dia em que ela morreu… Era um dia quente de Verão e como de costume, cheguei tarde a casa, tinha estado na praia com o Pedro, tinha sido um dia excepcional. O telefone tocou estridente e o meu pai atendeu, apressado. As feições foram-se alterando ao longo do telefonema e eu soube desde logo, que algo de errado se passava. A minha mãe tinha morrido num dos violentos ataques na Guiné-bissau. Estava lá como voluntária, a ajudar no que podia.
Incrivelmente, não chorei. Não senti nada. De facto, acho que o meu cérebro deixou de trabalhar, de transmitir informação. Instintivamente, peguei na mão do meu pai e do Pedro e levei-os à praia. Tivemos lá o resto da noite, a olhar para a lua, e para o seu incandescente reflexo no mar, agora negro. Não falámos. Não dissemos uma única palavra. Simplesmente, ficámos ali, à espera do amanhecer.
Porém, quando me lembro da minha mãe, não fico triste, nem desanimada. Incrivelmente, só fico com ainda mais força para viajar, conhecer o mundo, ajudar quem precisa…
Não me arrependo dum único dia que me zanguei com ela, em que discutimos ou nos chateámos ( até porque a maior parte das vezes, eu tinha razão!). Não me arrependo quando, ás vezes , me lembro dos seus defeitos e me irrito profundamente com eles.
A maior parte das pessoas tem aquela mania inevitável de quando alguém querido morre, de só se lembrar das coisas boas, dos bons momentos, das qualidades…
Talvez seja por isso, que não sinto tanto a falta da minha mãe, como toda gente acha que eu devia sentir. Aceito-a e penso nela como a pessoa que era: com as suas coisas boas e más. Assim, até parece que ela não morreu, parece que está apenas a fazer uma daquelas viagens e que vai voltar, brevemente, para me dar um sermão e dizer que não posso ter aquele bicho em casa…



domingo, dezembro 12, 2004

O meu olhar sobre o mundo

Encosto-me ligeiramente ao parapeito da janela e, melancolicamente, olho lá para fora.
Devo dizer que este é o melhor momento do meu dia. O momento em que me levanto e observo tudo para lá da minha janela, do meu pequeno mundo. O momento em que, o meu coração bate mais forte do que nunca, em que a possibilidade de tudo ter mudado, me assalta o coração...Mas depois apercebo-me, triste e desanimada, que a realidade será sempre a mesma...
O meu olhar, esmorecido de descontentamento, continua a observar tudo o que se passa no exterior. Não, não consigo desviar a minha atenção. O mundo muda e toma constantemente decisões, com uma velocidade atroz e cá fico eu de braço no ar à espera de ser ouvida.
Crianças morrem à fome, pessoas são roubadas nas ruas, o ódio e a vingança espalham-se como que uma epidemia sem cura aparente. O barulho infernal do trânsito atormenta-me e a camada de fumo negra que espalha em seu redor, faz-me sufocar. O materialismo e o inevitável consumismo substituem todos os importantes valores, agora secundários e dispensáveis.
Sinto-me só e magoada. Sinto uma pequenez inevitável, como se todos estes problemas fossem muito maiores que eu. Sinto-me como uma criança a enfrentar o papão!
Porém vejo uma luz lá ao fundo... O sol põe-se incandescente, por entre fábricas e arranha-céus. a sua luz quente, acaricia-me a cara, sinto a esperança a ressurigir.
Porque como se costuma dizer, amanhã é um novo dia e quem sabe o que pode acontecer...

Naked soul

You really shouldn't go
You really shouldn't leave
I´m standing here all by myself
You see, it's getting hard to breathe
You're so far away from me
I can feel it deep inside
This pain is hurting me so
I wish that I could just hold you tight...

With the blink of an eye
You were gone without a trace
And every night I fall asleep
I can still see your face
And then I can't avoid the tears
Running down so fast
I miss you so bad, boy
Why can't we be together at last?

And the wind won't blow
The stars won't shine
You really shouldn't go
Please listen to me whine!

Stop all the clocks
'Cause we got all the time
Let's sail forever, boy
We're gonna make it right...

burocracias inquietantes

Lembro-me como se fosse hoje... Os olhos grandes, de um azul forte penetrante, observavam-me com aquele carinho e atenção a que sempre me habituei desde o primeiro dia. Olhava em redor, observava e investigava tudo minuciosamente como se fosse a primeira vez. Sorria, franzia o sobrolho e admirava-se constantemente com o mundo e com as caras novas à sua volta. Nada escapava à sua crítica interior, disso tenho a certeza. Lá bem no fundo deveria estar a pensar: "quem são estas pessoas?", "que mundo novo é este?".
E foi assim que tudo começou... com dois olhinhos inocentes a comtemplarem-me ternamente. Deixei-me levar por este carinho incondicional e quase esqueci toda a luta e sofrimento, todas aquelas burocracias, quase intransponíveis que tive de ver serem combatidas, dia após dia. Todos aqueles documentos, papéis e informações detalhadas, necessárias para uma simples adopção. Para o simples acto de se levar uma criança para casa, de lhe dar a atenção e os cuidados indispensáveis. Tudo isto, todas estas complicações para estarem tantas crianças em constante sofrimento e instabilidade, de instituição para instituição, enquanto que lá fora há pais ansiosos e desesperados, dispostos a oferecer a estas crianças uma vida estável e feliz.
E foi assim que conheci a história desta menina... Uma menina que agora tem uma vida normal, como tantas outras crianças, num ambiente familiar saudável, onde se sentem a felicidade e harmonia que pairam no ar.