terça-feira, julho 26, 2005
No outro dia deixaram uma questão numa série que estava a ver, descontraidamente. Uma questão simples, mas bastante oportuna. Quando duas pessoas se amam, e por uma razão qualquer se separam, para onde vai esse amor, afecto essa paixão tão forte antes sentida? Parece estúpido, mas passo a explicar. Quando há amor numa relação e depois, devido a problemas há separação, será que o amor antes oferecido se pode tornar numa simpática amizade? E se, se conhecer alguém interessante posteriormente, será o amor oferecido sempre o mesmo? Será do género reciclagem, a única coisa que muda é o lixo, o objectivo é sempre o mesmo, renovar. Será no amor a mesma coisa? As pessoas mudam, mas o objectivo é sempre amar? É triste, muito triste pensar assim. O amor não é mais que a oferta do mesmo, da mesma maneira, só que a indivíduos diferentes. Não é o amor algo superior, especial, algo que se inventa espontaneamente a cada dia que passa.
Continuo a ter aquela ideia de infantil, ingénua, de contos de fadas, de que viverão “felizes para sempre”, uma visão estupidamente demasiado romântica, eu sei. Mas o realismo que se abate sobre nós no dia-a-dia assusta-me. Prefiro viver no meu filme encantado em que há princesas em apuros, dragões ferozes e príncipes corajosos (mesmo que isso às vezes possa magoar…)
O amor é como um sonho, se acreditarmos, se o desejarmos muito, pode vir a realizar-se, a acontecer. E quando entramos no sonho que é o amor, nada devemos fazer quando nos tentarem perturbar e acordar. Um sonho só é mesmo bom, quando é vivido até ao fim. Contínuo a ser uma romântica incurável (e é com alguma vergonha que o admito). Talvez porque conheci o amor. Talvez porque ele me abraçou com toda a sua força. Talvez porque já não queira acordar.
sábado, julho 09, 2005
as portas
Hoje fui directa ao assunto. Levantei-me da cadeira azul escura, forrada com uma pele bastante confortável (talvez couro), que está colocada mesmo no centro da sala, em frente à televisão a preto e branco pequena, horrivelmente rústica, e à estante de madeira repleta de livros. Andei decidida mas com passos silenciosos, como que não querendo ser descoberta. Encontrei finalmente a pequena caixinha meia prateada com uma fitinha cor de vinho à volta, tinha também uma pequena pérola da mesma cor da fita no topo. Fitei-a durante algum tempo. Era como olhar para a caixa de Pandora. No entanto, armei-me em forte – ainda bem que o fiz – e abri-a de repente. Ainda estavam lá. Apesar de todo o tempo que tinha passado, aquelas chavezinhas prateadas já desgastadas pelo tempo, ainda estavam lá. No mesmo sítio, com a mesma serenidade e imponência. Agarrei-as com indiferença e dirigi-me primeiramente ao quarto escuro. A porta estava entreaberta (não têm noção de como odeio portas entreabertas. Dão-me arrepios. Parece que alguém acabou sorrateiramente de passar por lá…). Fechei os olhos com muita força como que para afastar o mau agoiro. E dum momento para o outro, consegui fazê-lo assim dum trago. Olhei para o lado e outro desafio estava, inocente, à minha espera. A porta estava também entreaberta – arrepios outra vez… – mas a luminosidade era outra. Uma luz que faz doer a cabeça, que deprime. Sabem quando o céu está escuro, meio enublado e o sol espreita envergonhado por entre as nuvens? Tal e qual. E sem saber bem como, a missão acabou por ser bem sucedida, novamente.
Como já referi, hoje fui directa ao assunto. Fechei os meus medos a sete chaves e o vazio que antes me corroía, está agora aprisionado. Deixei tudo para trás, é melhor assim… Mas sabem, de vez em quando os meus fantasminhas, negros, aterrorizadores ainda passam matreiros pela fechadura e o meu vazio ainda passa, com esforço, pelas frestas da porta, agarrando-me desprevenida. De quando em quando ainda solto lágrimas dolorosas receando não poder ter esse sorriso lindo só para mim. De quando em quando ainda me sinto incapaz de engolir, com tantas lembranças do passado, com tanta nostalgia, que me faz sentir fraquinha, a cair no abismo instalado dentro de mim mesma.
Hoje é que vou mesmo directa ao assunto. Abri as portas corajosamente. E trespassei-as sem medo algum. Vão dar a um mesmo quarto. A um mesmo fim. Vão dar a ti. É inevitável, para amar, há que sofrer.
quinta-feira, julho 07, 2005
Amar não é só paixão. Não é só aquele fulgor atroz que se pode distinguir nos olhos de um apaixonado. Amar não é simplesmente gostar. Amar não é fazer os gestos mais incríveis e exibicionistas para impressionar. Amar é bem mais que isso… É admirar até ao mais ínfimo pormenor. É saber distinguir o bom do mau, a qualidade do defeito. É compreender mesmo quando tudo parece duvidosamente errado. Amar é sentir-se rendido com um simples, doce sorriso. Amar é querer tudo e não querer nada. É querer o mundo duma só assentada…é contentar-se apenas com a elementar presença. É ter em alguém um amigo, um confidente. Amar é sentir num abraço, segurança máxima, felicidade extrema, paixão fervorosa, amizade eterna, tudo de uma vez só… Já se dizia: “não se escolhe quem se ama” e agora digo eu… também não se escolhe como se ama. Amar é sempre amar. É sempre loucura. É sempre entrega. É sempre dor. É sempre amar.
Lutadores eternos
Às vezes dói demais. Às vezes é tão horrivelmente insuportável que parece que não vai dar para aguentar. E não é uma dor consciente, palpável, temporária, enfim não é física, não se pode localizar nem ver. E talvez seja isso que magoa mais: não saber encontrar a ferida para seguidamente lhe aplicar o antídoto. A dor interior alastra-se com uma rapidez assustadora e quando parece estar finalmente curada, regressa com toda a sua força e atinge sempre o seu alvo preferido, o mais sensível, o mais desprotegido: o coração. E mais ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. O apoio dos outros é definitivamente importante, mas só nós é que podemos proporcionar a derradeira salvação. Afinal está tudo na mente, na maneira como enfrentamos as coisas. Há que ter tempo para sofrer, porque apesar de não parecer é essencial. Mas também há que saber quando por fim a esse sofrimento, há que saber quando dizer “chega”.
A dor que não se vê é a que mais dói, é aquela que mais nos destrói e que se deixarmos nos pode sucumbir, se não tivermos força para a confrontar. Mas como diria um amigo meu, que muito admiro, qualquer sejam os obstáculos que nos sejam colocados no nosso caminho, arranjamos sempre forças em qualquer lugar para os ultrapassar. Afinal sempre foi esse o espírito do homem, enfrentar para sobreviver. Todos nós somos fortes, só que uns souberam despoletar essa força de um modo mais rápido e eficaz que outros. Cabe-nos a nós descobrir essa força, bem guardada. Ela reside dentro de mim, de ti, de todos nós. Estou cada vez mais perto de a alcançar… E tu, já a alcançaste?


