Escrever é um modo banal de transpormos tudo o que sentimos cá pra fora. Um modo simples para nós, meros mortais, trazermos ao de cima algo superior, que vai para lá da barreira real, mesquinha, do nosso dia-a-dia. Os sentimentos surgem como um golpe de magia, assim do nada, e é isso que os torna tão especiais, tão distintos. A amizade, o amor, a generosidade, o ódio, a raiva, a ganância têm valor próprio e aparecem sem aviso, não exigindo recompensa nem tendo preço marcado. A emoção, o sentir, é algo extraordinário e maravilhosamente misterioso.
É bom observar o sol alaranjado a pôr-se no mar azul escuro enquanto as ondas originam aquele som, aquela melodia que nos faz fechar olhos devagarinho para sentir tudo o mais intensamente possível. É bom ouvir atentamente aquela música vezes sem conta, não porque é famosa, não porque está na moda, mas porque nos toca de algum modo e nos faz sentir vivos. É bom chorar compulsivamente quando tudo parece estar errado. É bom sorrir, sem pensar, quando tudo corre bem. Acima de tudo é bom saber que tenho uma maneira de deitar tudo cá pra fora. Quando escrevo, quando a caneta passeia sozinha, decidida, nas linhas definidas do meu caderno, posso criar uma amostra de tudo o que sinto, de toda a confusão que se passa cá dentro. Posso inventar a emoção, transformá-la, moldá-la a minha maneira. A escrita é uma arte e tal como a pintura, a música ou a dança, é expressar, é explodir, é abrirmo-nos do modo mais puro e inocente. É complicado mostrarmos assim a nossa verdadeira essência porque os meios nem sempre são os ideais. Mas é gratificante saber que após tão esforçada exposição, há uma posterior compreensão. Porque ninguém gosta de se sentir só. É bom quando somos entendidos ou pelo menos ouvidos com a devida atenção. E já se dizia: “é melhor caminhar acompanhado na escuridão, do que sozinho na luminosidade intensa”.
sexta-feira, agosto 26, 2005
o solitário da praia
Era um dia de praia. Talvez um dia como todos os outros. O mar espelhava o forte brilho do sol, as ondas esbarravam relutantes na areia compacta e ele andava, novamente, com passitos inconstantes e ligeiros a escutar atento os murmúrios do mar. Olhava para o chão, melhor, para os pés que seguiam sem como nem porquê. Via-o lá, todos os fins de tarde quando o sol se punha. Todos os dias o mesmo ritual. Chegava à praia, seguia distraído até à beira mar e depois perdia-se num devaneio único que o acompanhava na sua longa caminhada, de braço dado com a água salgada. O cabelo castanho claro passeava descontraído ao sabor do vento e apesar da face linda, simétrica, duma perfeição sem igual, os olhos pequeninos mostravam o reflexo de uma alma confusa, perdida… Pensei várias vezes em segui-lo, em falar com ele, em dizer-lhe qualquer coisa, mesmo que fosse um simples “olá”. Pensei várias vezes em olhá-lo nos olhos, em desvendar aquele espírito inquieto, que se refugiava na banalidade de uma praia deserta. Mas é melhor assim. Continua a ser o meu solitário da praia. Sem nome, sem voz, sem alma…. Apenas um rapaz perdido no areal sem fim. Um solitário... o meu solitário da praia.
Talvez a luz da alvorada
Seja ainda o que me mantém esperançada
De te ver chegar
Tenho já cãs de sofrimento,
de tal que é o tormento
De estar longe de ti
Peço todos os dias a deuses esquecidos
Faço feitiços proibidos
Rezo uma vez mais e sem porquê
Creio em mitos ancestrais
Peço só uma vez mais
Poder ver-te sorrir
Mas o amor não precisa mais
De crentes incrédulos
Bruxas disfarçadas
Ou lendas fatigadas de tanto enganar…
O amor vale por si,
Tem vida em mim
E agora, faz-te viver…
Pedaços de vida
Uma enorme quantidade de risos e choros de todas as formas e feitios que pode possivelmente haver. Uma expressão enfadonha, uma cara envelhecida pelo tempo com o olhar enrugado, especial, só para mim. Uma mãozinha demasiado pequena, demasiado perfeita para ser real. Uma cerimonia luxuosa, carregada de todo o tipo de cores que inundam as árvores nuas, numa manha de Outono. A vida é como um palco cinematográfico, para mim.
As lembranças que tenho são bocados de cenas esquecidas que passam apressadas na minha cabeça… e ando à volta com estas cenas engavetadas dentro de mim. Quando era pequena adorava andar à roda no jardim a olhar para o céu… (pronto admito, ainda gosto!) Andava muito, muito depressa e várias imagens, assim em formato de filme antigo, em tons de cinzento, surgiam em mim como slides. Eram sons, eram imagens que me transmitiam todo o tipo de sentimentos. É nestas alturas em que saio do meu mundo fechado e me transporto para uma dimensão diferente, confusa, irreal. Pedaços de vida, é o que eu lhes chamo. Pedaços de filme. Bocadinhos de histórias, de lembranças, de coisas realmente importantes que nos marcam ou tão insignificantemente simples, mas que nos tocam de algum modo. Lembranças que despoletaram sentimentos profundos e que ficarão para sempre gravadas dentro de nós. A vida é como um palco cinematográfico, e eu gosto assim. Cenas a preto e branco. Sorrisos. Movimentos. Sons. E se o espírito se eleva perante o corpo, também as lembranças são entidades superiores, são elas que se certificam que jamais cairemos no esquecimento, que haverá sempre um marco…São inexoráveis, permanentes, imortais.
