céu dos murmúrios

palavras soltas, sentimentos controversos e emoções imaginadas... pequenas histórias que fazem lembrar a vida real ou que nos transportam para um mundo de fantasia... uma lágrima, um sorriso, um olhar, tudo se pode passar para o papel.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Romeu e Julieta

Pôs um daqueles chapéus esquisitos, fechou os olhos para se concentrar, depois fixou-os em mim, e sorriu, docemente. Eu permaneci séria e atenta – não o queria pôr nervoso. Ele pegou no livro e abriu-o numa página marcada, pré-definida. E começou, forçando voz fina e delicada:
“Dize-me: como vieste tu até aqui e para quê? Os muros do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será para ti a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.”
De gestos graciosos, dramáticos, frágeis e de uma voz fina, aguda passou a uma postura firme, decidida, a uma voz forte, grave, apaixonada:
“Transpus estes muros com as leves asas do amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidades de fazer, ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.”
E ele mudava de personagem, de pessoa, de carácter com um dom próprio e genuíno que me fazia sempre ficar de peito inchado, de orgulho.
“Se eles te vêem, matar-te-ão” – disse suplicando com os olhos a brilharem, a transporem o sentimento tão legitimamente falsificado.
“Ai! Há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra sua inimizade.”
Já meia envolvida na história, na emoção, revelei a minha atenção acumulada de todas aquelas tardes passadas juntos:
“Por nada deste mundo que queria que te vissem aqui” – podia sentir a minha cara a corar, a pouco e pouco e apesar do inicial sinal de surpresa dele, não tinha dúvidas que tinha gostado.
Pegou na minha mão de repente, ajoelhou-se mesmo à minha frente. Deixou cair o livro, desinteressado, respirou fundo e lançou-me um olhar forte e penetrante que me fez fraquejar por momentos.
“O manto da noite, oculta-me aos olhos deles. Mas se tu, me não amas, que importa que me encontrem? Seria melhor que o ódio deles pusesse fim à minha vida do que a morte tardasse, faltando-me o teu amor.”
Sinceramente, conseguia sentir uma lágrima a nascer, a querer rolar de felicidade, de uma explosão de sentimentos especiais. Mas, felizmente, evitei-a. Seria vergonhoso deixar cair uma lágrima que fosse à frente dele. Ficamos sérios. Olhámos um para o outro durante muito, muito tempo. Quer dizer, se calhar foram meros segundos, insignificantes minutos, mas para mim, o tempo tinha parado só para nos apreciar, só para saborear aquele momento.
Pareceu combinado. Lançámos uma gargalhada simultaneamente. E mais uma tarde era passada a ouvi-lo declamar Shakespeare, mais precisamente “Romeu e Julieta”. Ele gostava de o fazer perto de mim (dizia que se sentia à vontade, comigo lá) e eu gostava de ouvir, de ver, de sentir, tudo o que à volta dele surgia, toda aquele mundo irreal que ele inventava, que ele moldava à sua maneira. E cada vez me sentia melhor nesse mundo irreal, nessa fantasia magicada por outrem. Cada vez sinto mais que pertenço a esse mundo onde tudo é diferente, extraordinário. Deram-me uma vida, mas escolho outra… pode ser?

quarta-feira, setembro 14, 2005

na pele de outrem

A noite tinha acabado, finalmente e toda aquela loucura e euforia, também. Olhei para trás e suspirei, estava bastante cansado. Ainda consegui ver a cara de um deles a saltar para fora da janela e a gritar palavras soltas ao ritmo da música ensurdecedora. Felizmente há elevador – pensei eu – ainda com batidas fortes a soarem ao meu ouvido. Cheguei a varanda, sentei-me no chão e encostei a cabeça contra a parede. Peguei num cigarro e iniciei o meu ritual. Primeiro observei, atento, todas as luzes que iluminavam a cidade , depois fechei os olhos e escutei vigilante. Nada. O silêncio total. Olhei para a janela do prédio em frente. Já era comum. Uma mulher com os seus trinta e tal anos sentava-se no sofá grande, azul-escuro, tirava os sapatos altos, massajava os pés vagarosamente como que para aliviar um dia de trabalho desgastante (ou quem sabe uma alma dorida) e depois pegava numa moldura pousada em cima duma pequena mesa mesmo do seu lado esquerdo. Olhava, sorria, chorava. E voltava a chorar. E eu ficava a olhar, perplexo. Podia adivinhar o que ia fazer a seguir. Vai atar o cabelo e limpar a cara com as mangas da camisola disse eu para mim mesmo. E assim o fez. Depois levantou-se, pousou a moldura e apagou as luzes. Fixei o meu olhar para o andar a seguir a esse. Uma velhota sentada numa poltrona enorme, desgastada pelo tempo via televisão desinteressada enquanto fazia tricô a uma rapidez alucinante e de vez em quando ainda arranjava tempo para endireitar os óculos que deslizavam vagarosamente pelo nariz comprido, enrugado. Aquele barulho de chaves tão familiar despertou-me e desta vez foquei a minha atenção para lá para baixo, para o passeio. Um homem de feições brutas, cabelo curto encaracolado, e sobretudo grande, pesado, andava aos zig zags cantarolando, rouco músicas do século passado. Agitava o molho de chaves que tinha na mão, de quando em quando, e dizia sempre baixinho em tom de canção “Amor, não voltes atrás no tempo, porque o tempo não volta atrás.” Tantos anos a ouvir horas e horas professores aclamados de sábios e a única coisa que alguma vez me pareceu lúcida na vida foi dita por um desconhecido, um bêbedo. Bastante irónico.
Gosto de viver a vida dos outros. Gosto de me sentar aqui a observar o que fazem, os seus gestos e acções. Gosto de imaginar o que são e o que sentem. Não é que não goste da minha vida, não é que seja monótona, mas por momentos é estranhamente bom descansarmos um pouco de sermos quem somos para nos pormos na pele de outrem. Experimentarmos outras sensações, vermos tudo de outra maneira, enfim não sermos nós. Aquele rapaz que fuma um cigarro, descansado, que olha indiferente para a noite escura que o abraça intensamente, pensará ele como eu?

segunda-feira, setembro 12, 2005

Saudade

A saudade é um sentimento tão horrível e tão doce ao mesmo tempo. Traz dor por falta de bons momentos e traz paz e harmonia pela nostalgia intensa que provoca. É definitivamente bom poder recordar as coisas boas do passado, os momentos vividos, mas é igualmente doloroso ter a plena consciência que nada volta atrás e que antigas sensações não podem ser revividas.
A palavra saudade, o nome para o sentimento em si, só existe na nossa língua, em português e talvez seja por isso que o nosso povo é tão nostálgico e dotado duma melancolia peculiar. Vivemos um pouco mais de lembranças do passado do que do presente…
Até a nossa “imagem de marca”, o nosso tão conhecido fado, fala essencialmente da saudade, da tristeza e contém uma mágoa profunda, uma mágoa tão genuína, quase que doce. A guitarra canta, chorando e uma voz sentida expõe-se inocentemente.
Devo admitir que são muitas as vezes em que dou por mim a pensar no que já passou, meio tristinha e com uma “lágrima no canto do olho”! Não devia ser assim. Devia aproveitar cada dia, cada momento ao máximo, mas em vez disso passo grande parte do tempo a pensar no que já era. Mesmo assim acho que a nostalgia pode ser boa quando na dose equilibrada. É bom pensar nos momentos, nas sensações que nos marcaram. É bom ficar assim, entre este mundo e o outro, instável entre dimensões temporais distintas. E depois acordar para a realidade com mais força do que nunca de fazer tudo do bom e do melhor, sem arrependimentos nem remorsos, para que as lembranças valham sempre a pena recordar.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Um das muitas coisas que o amor tem de bom, é que não precisamos de o compreender para o sentirmos. Simplesmente existe entre nós, e é isso que importa, é isso que nos faz felizes. Uma pessoa pode passar uma vida à procura deste sentimento tão cobiçado e pode não o encontrar, porque ao contrário das coisas materiais, ao contrário de tudo o que está no mercado, o amor não pode ser localizado assim tão facilmente. O amor está num olhar, num sorriso especial, num toque que nos faz sentir vivos. Está escondido no mais reles pormenor, na mais ínfima particularidade.
E dói amar. Por vezes dói mesmo muito. Aceitamos coisas que antes nunca toleraríamos, magoamo-nos estupidamente, enfrentamos problemas fracos, frágeis, inúteis, como se o mundo se desabasse sobre nós. Sofremos mas continuamos a amar, talvez porque o nosso coração manda, talvez porque é instintivo ou meramente talvez porque precisamos... é inevitável a paixão, a afeição por alguém… e ainda bem que o é.
Em toda a história, este sempre foi um grande mistério para o homem. O que é isso de amor? Será que se ama só uma vez na vida? Será que o amor é único e irrefutável? Mas para quê compreender… Para quê querer saber mais se bem lá no fundo temos a plena consciência que é uma emoção tão complexa, tão singular que nunca poderá ser bem analisada, compreendida. Afinal é bom simplesmente sentir. É bom encontrar aquele alguém que com poucas palavras pode mudar o nosso dia, que com uma simples, simpática, expressão nos pode fazer sentir realmente felizes. E afinal haverá sensação melhor que amar e ser amado?

Disse fêmea
Mulher feita
Disse fêmea
Disse cresce
Disse muda
Perde a estúpida inocência
Dia após dia
Para aonde ia
Disse fêmea
Mulher feita

Mal eu sabia
Que a vida rouba os sonhos
Mal eu sabia
Que o mundo nos desmama
De paixões surdas,
Cava na cara
Sulcos secos,
Sulcos secos
(...)
Jorge Palma

Em homenagem ao Litos que, segundo ele, me deu a conhecer os verdadeiros génios da música, entre eles o grande Palma. ( mais uma razão para continuares a comentar...)